Quando a comparação rouba o valor da sua história.

Em algum momento da sua vida, você já foi comparado a alguém por outra pessoa? É bem provável que sim. Desde a infância, a comparação está presente em nossas vidas. Pessoas ao nosso redor, como familiares e amigos, nos comparam, e nós mesmos tendemos a nos comparar com outras pessoas. Porém, algo que antes parecia normal chegou a um ponto em que muitas pessoas parecem estar absolutamente frustradas com a própria vida.

Não que se inspirar em outras pessoas e ter referências seja um problema, mas, quando passamos a desejar a vida dos outros e, principalmente, a julgar a nossa vida pela régua alheia, podemos nos deparar com um problema. Você já parou para perceber o que o excesso de comparação faz com as nossas próprias histórias?

Essa frustração talvez não surja apenas do desejo de ter cada vez mais. Ela também pode nascer do fato de que estamos desaprendendo a reconhecer o que já temos e desvalorizando as nossas próprias vivências.

Um exemplo para ilustrar: uma pessoa abre as redes sociais e vê uma sequência de publicações de outras pessoas compartilhando suas conquistas — viagens, casamentos, formaturas, crescimento na carreira, a abertura de um negócio, a compra de uma casa, filhos… E, aos poucos, começa a sentir que aquilo que ela mesma viveu não parece ser suficiente.

Na minha opinião, isso é um tanto perverso. Quando alguém vê um recorte escolhido a dedo da vida do outro, aquilo parece extraordinário, enquanto as próprias experiências podem parecer banais, pois a pessoa estava lá enquanto elas aconteciam.

O que isso revela? Cada um conhece os bastidores das próprias conquistas. Somente você — ou, no máximo, aqueles que estavam por perto — sabe quanto tempo algo levou, conhece as inseguranças que talvez existissem lá atrás e se lembra das vezes em que pensou em desistir. Enfim, só você sabe que tudo não foi tão bonito quanto parece na foto. Já a vida do outro chega até você editada e cheia de filtros.

É muito fácil se impressionar com as conquistas alheias, afinal, você não esteve lá para ver os bastidores. Mas talvez não seja tão simples olhar para a própria vida e lembrar os momentos bons que viveu, as dificuldades que conseguiu superar, as relações que construiu e as coisas que aprendeu.

A questão não é demonizar as redes sociais. Afinal, quem posta uma viagem pode simplesmente estar feliz; quem compartilha a conquista de uma casa nova pode apenas estar orgulhoso. A questão é que quem observa de fora não tem acesso ao restante da história. Uma foto da casa nova não mostra, por exemplo, a dívida ou os anos economizando dinheiro. Uma publicação sobre uma mudança de carreira não revela as dúvidas que surgiram durante o processo ou o esforço envolvido. E, principalmente, nada disso mostra aquilo de que, talvez, a outra pessoa tenha aberto mão para conquistar o que conquistou.

Muita gente olha para esse tipo de publicação e pensa apenas: “Eu queria isso.” Mas será que gostaria de tudo o que existe por trás de determinada conquista?

Talvez a pergunta que você possa se fazer hoje não seja: “Por que eu não tenho o que aquela pessoa tem?”, mas: “O que eu tenho hoje que, lá atrás, eu teria considerado uma conquista?”

Fazer essa pergunta pode mudar completamente a sua perspectiva. Existe uma tendência de transformar cada degrau da vida em um novo ponto de partida. Em algum momento, você desejou muito alguma coisa. Conseguiu. Com o tempo, aquilo deixou de parecer uma conquista e virou normalidade. Então, você já está pensando na próxima coisa que falta e, nessa busca, toda a trajetória pode acabar desaparecendo e perdendo valor.

Então, será que, enquanto você observa tanto a vida que gostaria de ter, não está deixando de perceber a vida que levou tanto tempo para construir?

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