O que você procura quando compra depois de um dia ruim?
Você já ouviu falar em doom spending? É um termo relativamente novo, usado para descrever o comportamento de gastar de forma impulsiva ou excessiva como uma maneira de lidar com sentimentos negativos — especialmente diante de situações que provocam ansiedade ou sensação de impotência em relação ao futuro.
A lógica que resume o conceito é mais ou menos esta: “Já que as coisas estão ruins, já que não vou conseguir construir uma vida estável, comprar uma casa ou construir patrimônio, então não vou ficar me privando. Vou gastar mesmo e aproveitar.”
Ele pode aparecer tanto em compras pequenas e frequentes — delivery, roupas, cosméticos, aplicativos e toda tranqueira que você possa imaginar — quanto em gastos maiores. Mas nem sempre a pessoa está conscientemente fazendo doom spending. Na maioria das vezes, trata-se apenas daquela sensação de “eu mereço me presentear depois desse dia”.
E não estou dizendo que exista algo de errado em gastar dinheiro com você mesmo. Inclusive, sou bem contra aquela ideia de viver limitando tudo para economizar o máximo possível — para mim, isso não é vida. Porém, existe uma diferença entre gastar porque queremos alguma coisa e gastar porque queremos sentir alguma coisa.
Comprar um livro porque você quer lê-lo é uma coisa. Comprar cinco livros porque teve um dia ruim e precisa sentir que está fazendo algo por si mesmo é outra. Por isso, quis trazer esta reflexão: quantas vezes o consumo não é, de fato, sobre aquilo que estamos comprando?
Talvez a compra esteja tentando proporcionar algum alívio. Talvez esteja tentando compensar uma frustração. Talvez seja uma recompensa ou, ainda, uma distração. Talvez seja uma maneira de recuperar, mesmo que por alguns minutos, a sensação de que ainda temos algum controle sobre a nossa vida.
É aí que está a questão: às vezes, não estamos comprando uma coisa. Estamos comprando alguns minutos de uma sensação que depois vai embora. Mas, principalmente quando a compra é no cartão de crédito, a conta continua lá, à espera do pagamento.
E aí está a contradição: o doom spending nasce justamente dessa sensação de falta de controle sobre o futuro. Por não saber o que vai acontecer amanhã, a pessoa prefere gastar hoje. Só que o amanhã chega — e o gasto continua existindo. Ou seja, tentamos aliviar a ansiedade que sentimos no presente a respeito do futuro criando um problema para o nosso eu do futuro resolver.
Ao que parece, nos dias de hoje, com tanta exposição, comparação e terror em torno do futuro, as pessoas estão tendo cada vez mais dificuldade em lidar com a frustração. Essa dificuldade faz com que surja a necessidade de transformar imediatamente um sentimento ruim em alguma forma de recompensa.
Nisso, o “eu mereço” passou a significar “eu preciso comprar alguma coisa”; o consumismo virou uma das formas mais socialmente aceitas de autocuidado; e a relação com o dinheiro se tornou, muitas vezes, uma relação com a ansiedade.
Isso acontece porque comprar oferece algo que a ansiedade costuma tirar: uma sensação imediata de decisão, de recompensa e de controle. Quando o futuro parece incerto, caro ou inalcançável, escolher alguma coisa para comprar pode dar a impressão de que ainda somos capazes de agir sobre a própria vida. Mesmo que seja uma escolha pequena, ela é concreta: eu quero, eu posso, eu compro.
O problema é que esse alívio costuma ser passageiro. A compra resolve o desconforto daquele momento, mas não necessariamente resolve aquilo que causou a ansiedade. E, quando ela é feita sem planejamento, o que era uma tentativa de aliviar uma preocupação pode se transformar em uma nova preocupação alguns dias depois.
É como se muitos acreditassem que é possível comprar uma saída para quando estamos tristes, frustrados ou cansados. Só que, quando o dinheiro passa a ser usado principalmente para regular emoções, ele deixa de ser apenas uma ferramenta para realizar desejos e necessidades. Passa a carregar a expectativa de preencher vazios, compensar frustrações e silenciar medos que, no fundo, não podem ser resolvidos no caixa de uma loja.
Mas não me entenda mal: minha intenção aqui não é dizer algo genérico como “doom spending é ruim. Pare de gastar dinheiro.” A ideia aqui é compreender a situação de um ponto de vista humano, e não apenas financeiro. Pois, se as pessoas não estão comprando apenas porque precisam de algo, mas tentando comprar uma sensação que está faltando, é porque o consumo já deixou de ser escolha e começou a funcionar como anestesia.
Porém, ainda é importante reconhecer que existe uma diferença entre um comportamento pontual e um padrão que começa a causar problemas. Não é preciso patologizar toda compra impulsiva, nem fazer parecer que quem comprou uma blusinha depois de um dia ruim está cometendo um grande erro financeiro.
Então, para finalizar: o que você procura quando visita uma loja depois de um dia ruim? O que está tentando compensar quando diz “eu mereço”? E, principalmente, quando olha para aquilo que comprou, consegue separar o que realmente queria daquilo que queria sentir?

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