Educação financeira para adultos que não aprenderam educação financeira.

Creio que este texto fuja um pouco do padrão dos assuntos estabelecidos por aqui até então. Porém, me deparei com uma situação que, depois que parei para pensar, pode ser muito comum na vida adulta.

Estava conversando com uma pessoa que começou a trabalhar recentemente e passou a receber um salário razoável. Ela não tinha, naquele momento, grandes despesas fixas e, mesmo assim, chegou ao fim do mês sem dinheiro algum. A solução que encontrou foi pedir para que outra pessoa guardasse seu dinheiro e decidisse quando e quanto ela poderia usar — e, claro, apenas mediante bons motivos. Eu fiquei em choque, pensando: “Como chegamos a esse ponto?”.

Em primeiro lugar, entenda: não estou aqui para fazer julgamentos — embora possa parecer que estou neste momento. Porém, pensando sobre o assunto, me dei conta de que existem pessoas que, talvez, simplesmente não saibam como administrar o dinheiro. Não estou dizendo que sejam irresponsáveis ou algo assim, mas que, normalmente, somos condicionados a primeiro aprender a ganhar dinheiro, pra só depois aprender a cuidar do dinheiro que ganhamos.

Ao que parece, muitas pessoas conseguem trabalhar, receber seus salários e pagar suas contas, mas nunca pararam para pensar em como administrar aquilo que ganham. E, bom, minha ideia aqui não é falar sobre investimentos, Selic, ou ficar citando siglas que normalmente encontramos em conteúdos de finanças — que, inclusive, falarão sobre isso muito melhor do que eu. Mas percebi que talvez exista uma lacuna quando o assunto é dinheiro e finanças: entre a pessoa que desconhece o assunto e quem já consome esse tipo de conteúdo. E isso importa na vida adulta, já que é uma habilidade que presumimos que todo adulto deveria ter, mas que ninguém necessariamente ensinou.

A gente tende a imaginar que educação financeira começa quando sobra dinheiro, mas ter dinheiro é diferente de saber administrá-lo. Na verdade, é justamente quando começa a sobrar que algumas pessoas descobrem que não sabem o que fazer com ele. E é aí que mora o perigo.

Pensar em coisas como “é só não gastar” não é uma estratégia para quem tem dificuldade de controlar o impulso. Isso é parecido com dizer para alguém que está sempre atrasado: “É só chegar no horário”. Apesar de tecnicamente certo, é praticamente inútil.

Então vamos lá: ao básico primeiro. Depois, se você quiser, fique à vontade para aprender mais com gente que realmente entende do assunto — só cuide para não ir atrás dos [censurado] que só querem lhe vender cursos.

Primeiramente: saiba para onde o seu dinheiro vai

Comece a fazer uma relação entre o dinheiro que entra e o dinheiro que sai. Não precisa sair correndo para fazer uma planilha complexa, apenas anote absolutamente tudo — mesmo e, principalmente, os gastos “pequenininhos”. É a sucessão deles que leva seu dinheiro embora sem que você perceba, pois dinheiro “pequeno” também é dinheiro. Por isso, quando digo tudo, é TUDO mesmo.

Também é muito importante se organizar: recebeu? Não pense “Tenho tanto para gastar”, pense: “Quanto desse tanto realmente está disponível para eu gastar?”. Não precisa se apegar a porcentagens rígidas ou querer seguir uma fórmula mágica, mas separe o que precisa para pagar as contas, o quanto você deixará para gastar — compras e lazer, por exemplo — e o quanto vai guardar, seja para uma reserva ou para uma compra planejada.

Segundamente: diferencie o que você quer do que você pode comprar

E não, não estou dizendo que educação financeira é não comprar as coisas que quer. Inclusive, uma vida em que você nunca pode comprar nada porque está eternamente “economizando” também não é necessariamente uma boa relação com dinheiro.

Às vezes, o problema não é quanto dinheiro temos, mas o quão fácil é transformá-lo em consumo. Por isso, não se pergunte “Eu posso comprar isso?” nem “Eu quero isso?”. Pergunte-se: “Eu quero isso o suficiente para gastar meu dinheiro?”. E, na dúvida, espere. Você pode querer alguma coisa em algum momento e depois descobrir que nem queria tanto assim. Dessa forma, evita as perigosas compras impulsivas, que são só dopamina rápida e arrependimento depois.

Terceiramente: cuidado com a falsa sensação de gastar menos

A facilidade de pagamento pode fazer parecer que estamos gastando menos. Além disso, a facilidade de fazer compras sem nem sequer precisar sair de casa, acaba sendo uma armadilha para a vida financeira. Principalmente com o cartão de crédito que, embora muita gente o considere assim, não é uma extensão da renda.

E o parcelamento? Bom, ele engana muita gente. Você olha e pensa: “É só cinquentinha por mês”, mas esse valor não é o valor total da compra, é apenas a parcela. E várias dessas “parcelinhas” podem ocupar boa parte da sua renda, e pior: por vários meses.

E mais uma coisa sobre o cartão de crédito: muita gente entra nesse rolo porque o dinheiro sai da conta só depois, mas a decisão de gastar acontece agora. É especialmente importante tomar cuidado com isso quando se tem o hábito de comprar por impulso.

Bom, para finalizar, eu não pretendia escrever sobre finanças aqui, mas realmente é algo que faz parte da vida adulta. Sei que o que disse é bem óbvio, mas, às vezes, é preciso falar do óbvio. É preciso parar pra perceber que aquilo que sempre pareceu básico talvez não fosse tão básico assim para outras pessoas. Existem coisas que aprendemos tão cedo — ou convivemos com elas por tanto tempo — que esquecemos que alguém precisou nos ensinar e que nem todo mundo foi ensinado.

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