Definitivamente não somos uma coisa só.

Tenho a impressão de que passamos tanto tempo tentando descobrir quem somos que esquecemos uma coisa óbvia: talvez sejamos várias coisas ao mesmo tempo. Mas é interessante se percebermos como rapidamente buscamos uma palavra para explicar quem alguém é, como se precisássemos de uma definição curta para descrever uma pessoa inteira.

Não sei se isso poderia ser chamado de crise de identidade — e, sinceramente, essa nem é a minha intenção aqui. Penso em algo mais corriqueiro: a facilidade com que resumimos uma pessoa a uma única parte de sua vida, como se um rótulo — “mãe”, “professor”, “marido” — fosse capaz de explicar quem ela é por inteiro.

É curioso perceber como fazemos isso o tempo todo. Quando alguém aparece em uma entrevista, por exemplo, é comum encontrarmos seu nome acompanhado de uma pequena legenda: “Fulano de Tal, economista”. Às vezes, a pessoa está ali para falar de um assunto que não tem nada a ver com economia, mas aquele rótulo continua embaixo do nome. Como se saber o que alguém faz bastasse para saber quem essa pessoa é. Mas não basta.

Uma profissão pode dizer o que fazemos; um relacionamento, com quem dividimos a vida; a maternidade ou a paternidade, que cuidamos de alguém. Nada disso, isoladamente, dá conta de uma pessoa inteira. Por trás de cada uma dessas definições, existem outros “eus” que também precisam de espaço.

Não somos uma coisa só. Ainda assim, podemos passar muito tempo desempenhando um papel e esquecendo de alimentar os outros. Porém, existe uma diferença entre ter vários papéis e ser fragmentado por eles.

Uma mulher pode ser mãe e continuar sendo alguém que gosta de música, que quer viajar, que tem ambições profissionais, que sente falta de sair com as amigas, que gosta de se arrumar e quer aprender algo novo. O filho não apagou essas partes.

E isso também vale para o homem. Ele pode ser marido e pai, mas também músico, amigo, filho, irmão, cozinheiro, jogador, leitor; pode gostar de videogame, querer aprender a pintar e ter sonhos que não têm nada a ver com ganhar dinheiro. Digo isso porque, especialmente o homem, frequentemente acaba reduzido ao papel de provedor.

É quase engraçado notar esses rótulos associados ao nome de alguém, como se vestíssemos uma etiqueta: “Ela é engenheira.” “Ele é empresário.” “Ela é mãe de fulano.” “Ele sustenta a família.” Certo, mas e a pessoa? Do que ela gosta? O que a diverte? O que gostaria de aprender? Quem era antes de assumir todas essas responsabilidades?

Talvez haja uma consequência emocional forte nisso: quando a identidade de alguém fica excessivamente concentrada em uma função, qualquer dificuldade nessa função pode parecer uma ameaça à própria pessoa.

Se um homem acredita que seu valor está em prover, perder o emprego não é apenas perder o emprego. Pode parecer que ele perdeu parte do próprio valor. Se uma mulher acredita que seu valor está em ser uma boa mãe, um dia difícil com os filhos pode fazê-la sentir que ela própria fracassou. Se alguém se resume ao profissional que é, uma demissão pode parecer uma crise de identidade, e não apenas uma mudança profissional.

Por isso, a dica que deixo a você, querido leitor, é: resgate seus vários “eus”. Se não fizer isso primeiro, dificilmente as pessoas à sua volta se lembrarão deles — ou sequer saberão que existem. Permita-se ser mais do que os rótulos que lhe atribuem, mais do que uma etiqueta. Sei que a realidade muitas vezes é dura e que isso pode ser difícil, mas permita-se ao menos tentar.

Mas cuidado: não estou sugerindo que você transforme a ideia de ter várias faces em mais uma obrigação. Não se trata de acrescentar algo à rotina. Não é como se, além de trabalhar, cuidar da casa, criar os filhos e manter os relacionamentos, você também precisasse se encher de hobbies. Trata-se de reconhecer que essas outras partes existem e merecem algum espaço, quando são importantes para nós.

Talvez cada pessoa tenha vários “eus” que não desapareceram — apenas ficaram à espera. A amiga que deixou de marcar encontros. O músico que parou de tocar. O “gamer” que deixou de jogar. A pessoa que passou a se enxergar apenas como alguém que precisa pagar contas; que abandonou um interesse por achar que “não tem mais idade para isso”; que deixou de lado um sonho que não precisava virar profissão, mas que fazia a vida parecer um pouco mais sua.

A pergunta que deixo não é “quem você gostaria de ser?”, mas sim “quem você já é, mas deixou de ser por falta de espaço?”. Afinal, uma função explica o que fazemos, mas não explica quem somos. Não somos cargos, relações ou responsabilidades: somos as pessoas que existem por trás de tudo isso.

Talvez a vida adulta não se trate de descobrir quem somos, mas de não deixar que uma única versão de nós ocupe toda a nossa totalidade. Talvez não seja uma crise de identidade. Talvez seja excesso de identidade — ou falta de espaço para todas elas.

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