Desde muito cedo, somos apresentados a uma espécie de roteiro sobre como a nossa vida deveria acontecer. De acordo com o que dizem nossos pais, professores e todos aqueles que, de alguma forma, nos influenciam, nós temos que estudar, fazer uma faculdade, construir uma carreira… Então, quando crescemos, em algum momento temos que encontrar alguém para nos casarmos e formar uma família, adquirir nossa casa, nosso carro e viver determinadas experiências… É como se existissem etapas que, ao serem concluídas, nos permitiria considerar que a nossa vida é um sucesso.
Mas acontece que, naturalmente, nem todo mundo deseja as mesmas coisas. E, é claro, também não há nada de errado em querer seguir o caminho que descrevi. O problema talvez comece quando passamos a perseguir essas etapas sem nunca parar para pensar no que elas realmente significam para nós. Pois afinal, será que queremos essas coisas porque realmente fazem parte dos nossos planos ou porque simplesmente fomos ensinados de que é assim que a vida deve ser?
Quando os planos para o futuro parecem já estar prontos
Às vezes, até temos respostas quando alguém pergunta sobre nossos planos para o futuro. Mas, quando tentamos olhar um pouco além daquele projeto de vida que nos foi ensinado, percebemos que nem sempre sabemos explicar o que esperamos encontrar nele.
Durante muito tempo, por exemplo, eu sabia que queria formar uma família. Quando imaginava esse futuro, pensava no vestido de noiva, na festa de casamento, na lua de mel… Mas não me lembro de dedicar a mesma atenção a questões como a pessoa com quem dividiria aquela vida, o tipo de relação que gostaria de construir ou o que significava, de fato, formar uma família.
Eu sabia o que queria alcançar de uma forma mais abstrata e romantizada, mas ainda não havia refletido sobre o que aquilo representava e se aquilo realmente faria sentido para a vida que eu estava construindo. Ou se a vida que eu estava construindo fazia sentido com aquilo. Confuso, né? Pois é, quando nossos objetivos são abstratos, é realmente assim que parece quando tentamos observá-los com mais atenção.
Quando paramos para descobrir o que realmente queremos
Percebendo que eu realmente perseguia algo que não estava bem claro, em determinado momento decidi fazer uma pausa nos relacionamentos. Já mão estava mais procurando alguém, nem tentando encontrar a pessoa ideal. Simplesmente queria ficar sozinha, aproveitar minha própria companhia e viver um pouco sem a expectativa de que um relacionamento precisasse fazer parte dos meus planos naquele momento.
Com o tempo, podendo focar muito mais em mim mesma e me conhecendo melhor, a maneira como eu enxergava algumas coisas mudou – e muito. Comecei a compreender com muito mais clareza o tipo de pessoa que gostaria de ter ao meu lado e, principalmente, o tipo de relacionamento que eu gostaria de construir com essa pessoa.
Quando voltei a estar aberta a conhecer alguém, já não existia mais aquela necessidade de procurar ativamente. Se aparecesse alguém com quem houvesse compatibilidade, ótimo. Se não, tudo bem também. Afinal, minha vida já estava acontecendo. Por isso, eu queria alguém que chegasse para somar, compartilhar experiências e construir algo junto, não alguém que me fizesse abrir mão de mim mesma para estar ao lado.
Em outro texto, quando falava sobre a carência, falei sobre a importância de sermos bons ímpares para formar bons pares. E acredito que essa compreensão passa justamente por perceber que não precisamos encaixar alguém em uma vida que ainda sequer começamos a viver. Mas essa reflexão não se limita apenas aos relacionamentos.
Será que estamos seguindo o caminho que realmente queremos?
Quantas vezes escolhemos uma profissão porque parece ser o caminho esperado? Quantas vezes estabelecemos objetivos porque observamos outras pessoas percorrerem aquela trajetória? Quantas vezes nos preocupamos tanto em chegar a determinado lugar que nem sequer paramos para questionar se é realmente para lá que queremos ir, como fazemos para chegar lá — e se estamos dispostos a isso?
Creio que parte da dificuldade em estabelecer um rumo claro para seguir esteja justamente em confundir aquilo que desejamos com aquilo que fomos ensinados a desejar. E talvez seja por isso que, em determinados momentos da vida, podemos nos deparar com uma pergunta bastante incômoda: E se eu não souber mais para onde quero ir?
E quando percebemos que não temos um norte?
O que acontece quando finalmente percebemos isso? Quando olhamos para os planos que fizemos, para as expectativas que alimentamos e nos damos conta de que talvez não tenhamos um norte tão definido quanto imaginávamos?
Pode ser uma sensação bastante desconfortável. Afinal, durante muito tempo, tínhamos ao menos uma ideia de onde deveríamos chegar. Mesmo que o caminho não fosse exatamente claro, que o destino fosse meio turvo, ele ainda existia. Só que, de repente, aquilo já não parece mais o suficiente. Surgem dúvidas, angústia e uma sensação de estar meio perdido, sem saber qual deveria ser o próximo passo.
Nessas horas, é tentador procurar rapidamente um novo plano para colocar no lugar. Qualquer coisa que nos devolva a sensação de estar avançando em alguma direção. Mas será que adianta escolher um novo destino sem antes entender por que estamos indo até lá?
Nem sempre precisamos ter todas as respostas
Talvez não saber para onde ir não seja necessariamente um problema que precisamos resolver às pressas. Se perceber nesse ponto pode ser uma boa oportunidade de parar e olhar com mais atenção para aquilo que temos considerado importante, para as expectativas que carregamos e para os caminhos que estamos tentando seguir.
Isso não significa que precisamos ter todas as respostas antes de tomar qualquer decisão. A vida continua acontecendo, e muitas coisas só descobrimos enquanto caminhamos. Mas existe uma diferença entre seguir em frente sem conhecer todos os detalhes do percurso e simplesmente “empurrar a vida com a barriga”.
Talvez encontrar um rumo para a vida não seja sobre descobrir imediatamente um destino perfeito. Talvez seja sobre começar a entender quais caminhos fazem sentido para nós e quais já não fazem mais.
O autoconhecimento como ponto de partida
É justamente aí que o autoconhecimento ganha uma tremenda importância. Para traçar um norte que faça sentido, precisamos começar a compreender quem somos, o que valorizamos e o que realmente buscamos. Não se trata de encontrar uma fórmula ou ter todas as respostas. Trata-se de construir referências que nos ajudem a fazer escolhas mais alinhadas com aquilo que queremos para nossa vida. Mas como começamos esse processo?
Como separar nossos próprios desejos das expectativas que fomos acumulando ao longo de nossas vidas? Bom, antes de encontrar uma direção, talvez precisemos conhecer um pouco melhor quem está escolhendo o caminho. Ou seja, nós mesmos. Mas isso já é assunto para outra conversa. Espero você lá!

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