A vida real já não cabe mais no algoritmo.

Tenho visto ultimamente bastante gente se atentando para como a internet vem distorcendo — e muito! — a nossa percepção das coisas, principalmente em relação aos números. Só que não é apenas a nossa percepção sobre os números que mudou, mas também a noção do que é normal. Vou dar um exemplo para ilustrar melhor:

Pense em alguém que decide emagrecer. Essa pessoa começa a pesquisar sobre alimentação, exercícios, rotina saudável, perda de peso… e o algoritmo rapidamente compreende o interesse dela. A partir daí, começa a entregar uma quantidade cada vez maior de conteúdos relacionados ao assunto, o que é ótimo, não é mesmo? Bom, depende. Porque, apesar de serem recomendados conteúdos de, muito provavelmente, educadores físicos, nutricionistas e atletas, também aparecerão, nesse caso, os influenciadores do mundo fitness.

E claro, nada contra esses influenciadores, não me entenda mal. A questão é que, muito provavelmente, quem vai aparecer para essa pessoa não serão outras pessoas como ela, mas pessoas que vivem de falar sobre fitness. Pessoas que treinam há anos, que têm uma rotina construída em torno disso, que talvez tenham acesso a uma excelente academia com acompanhamento profissional, alimentação planejada, tempo exclusivo para treinar e uma série de outras coisas que não fazem parte da realidade da maioria das pessoas. E, principalmente, são pessoas que já chegaram ao resultado que aquela pessoa está procurando.

Depois de algum tempo vendo aquilo todos os dias, é fácil esquecer uma coisa bastante óbvia: aquilo não é uma amostra da população, é uma seleção. Estamos vendo justamente as pessoas que se destacam naquele assunto. É como entrar em uma exposição de fotografias e, depois de olhar durante horas apenas para as melhores fotografias, sair de lá acreditando que todas as fotos do mundo são daquele jeito. Não são. Mas o nosso cérebro não costuma fazer muito bem essa distinção.

Se passamos horas vendo corpos definidos, casas impecavelmente decoradas e organizadas, viagens maravilhosas, relacionamentos aparentemente perfeitos, pessoas extremamente produtivas e vidas cuidadosamente planejadas, tudo isso começa a ganhar uma aparência de normalidade. E aí a nossa própria vida começa a parecer… estranha. A casa que estava perfeitamente normal ontem passa a parecer sem graça. O corpo que era apenas o nosso corpo passa a parecer inadequado. As férias que foram muito boas começam a parecer insuficientes porque alguém acabou de passar quinze dias na Europa. O relacionamento que tem carinho, companheirismo e dias comuns começa a parecer menos especial porque estamos vendo casais apaixonados fazendo declarações de amor todos os dias.

E aquela rotina que já era cansativa passa a parecer ainda pior quando vemos alguém acordando às cinco da manhã, fazendo exercícios, meditando, lendo, trabalhando, estudando, cozinhando refeições saudáveis e, de alguma maneira, ainda encontrando tempo para ser “influencer”. Mas essa é uma comparação bastante injusta para quem vive uma vida normal. Estamos comparando a nossa vida inteira com os melhores recortes da vida de outras pessoas. E talvez essa seja uma das maiores armadilhas da internet.

Não necessariamente porque aquilo que vemos seja falso. Aquela pessoa pode realmente ter aquele corpo. Aquela casa pode realmente ser daquele jeito. Aquela família pode realmente estar feliz. Aquela pessoa pode realmente viajar várias vezes por ano. O problema é outro: o que estamos vendo é uma realidade selecionada pelo algoritmo. A internet não mostra necessariamente aquilo que é mais comum; afinal, o comum a gente vê todo dia, em primeira pessoa. Ela mostra aquilo que é mais interessante, mais bonito, mais impressionante ou simplesmente aquilo que faz as pessoas continuarem olhando. E essas são duas coisas bem diferentes.

Inclusive, o algoritmo aprende com isso. Se você para e assiste a um vídeo sobre uma determinada coisa, provavelmente vai receber outro. E depois outro. E mais outro. De repente, aquilo que representa uma pequena parcela da realidade começa a ocupar uma parcela enorme da sua tela. Só que ver algo o tempo inteiro não significa que aquilo aconteça o tempo inteiro. Talvez seja por isso que algumas coisas começam a parecer absolutamente comuns na internet.

Mas a verdade é que não é bem assim que a vida funciona de verdade. Na vida real, a pessoa que está tentando emagrecer provavelmente também está cansada, trabalha, tem dias em que não consegue treinar e às vezes acaba comendo alguma coisa que não estava no planejamento. Na vida real, a casa fica bagunçada, as pessoas se desentendem, alguns planos dão errado e as férias, em algum momento, acabam. Existem dias em que não há absolutamente nada de interessante para mostrar, mas esses dias também fazem parte da nossa vida.

Talvez o problema seja que a internet nos acostumou a ver o resultado sem conhecer o caminho. Afinal, se todo mundo parece estar chegando a algum lugar, por que alguém não chegaria? Talvez porque a internet tenha colocado uma vitrine entre nós e a realidade, e nós tenhamos começado a olhar para a vitrine como se ela fosse uma janela. Porém, o problema de uma vitrine é justamente esse: ela foi feita para mostrar o que existe de mais interessante. Ninguém monta uma vitrine para colocar aquilo que é comum.

A nossa vida talvez não tenha ficado pior. É bem provável que apenas tenhamos passado tempo demais olhando para uma seleção dos melhores momentos da vida dos outros. Claro que não tem nada de errado em admirar alguém, pensar que gostaríamos de chegar a determinado lugar ou buscar inspiração. O problema começa quando esquecemos que aquela pessoa não é a nossa régua.

Talvez a gente precise lembrar de como realmente é a vida de vez em quando. Uma vida menos impressionante, mas também mais real. E talvez seja justamente essa parte, que não cabe em uma postagem, que faz a nossa própria vida ter mais sentido.

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