Perfeccionismo: quando a cobrança vira limite.
“Eu sou perfeccionista.” Quantas pessoas não usam essa frase como uma qualidade em seus currículos? Afinal, ser perfeccionista costuma ser entendido como ser cuidadoso, ter atenção aos detalhes, ser responsável e comprometido em fazer as coisas da melhor maneira possível. De fato, existe um lado positivo nisso. Quem busca fazer um bom trabalho, presta atenção no que está fazendo e procura melhorar pode, sim, alcançar resultados muito bons.
Só que existe um problema quando fazer tudo perfeitamente passa a ser uma obrigação. Quando isso acontece, o perfeccionismo acaba se transformando em uma faca de dois gumes.
O perfeccionismo tende a criar uma espécie de régua que está sempre aumentando. Você termina alguma coisa, olha e pensa que poderia ter feito melhor. Recebe um elogio, mas lembra justamente daquele detalhe que não saiu como gostaria. Quando finalmente consegue atingir um objetivo, imediatamente já começa a pensar no próximo. E, sem perceber, aquilo que deveria representar satisfação e nos dar orgulho se transforma em mais uma oportunidade de cobrança.
Não importa tanto o quanto foi feito ou o quanto nos dedicamos: o olhar fica preso justamente naquilo que faltou. É como se houvesse sempre uma voz dizendo em nossos ouvidos: “Está bom, mas poderia melhorar.” E talvez seja bem aí que está uma das maiores armadilhas do perfeccionismo: a dificuldade de conseguir reconhecer quando fazemos algo bom o suficiente.
O perfeccionismo, muitas vezes, está associado ao medo de fazer algo errado. Mas errar faz parte de aprender, experimentar e simplesmente viver. E, para quem se cobra demais, o erro pode ganhar um peso muito maior do que realmente deveria ter. Um erro deixa de ser apenas um erro e passa a parecer uma confirmação de que alguma coisa não foi feita direito. E, às vezes, de que nós mesmos não somos bons o bastante.
Isso pode fazer com que coisas simples se tornem muito mais difíceis. Começar um projeto pode dar medo porque ele pode não sair como imaginamos. Mostrar uma ideia pode ser desconfortável porque alguém pode não gostar. Tentar algo novo pode parecer tão assustador justamente porque existe aquele medo de descobrir que não conseguirmos.
É muito comum ver as pessoas associando a procrastinação à falta de vontade. Mas nem sempre é assim. Às vezes, adiamos justamente aquilo que queremos muito fazer porque estamos com medo de não conseguir fazer bem. Se eu acredito que preciso entregar algo perfeito, começar pode ser assustador. Afinal, enquanto ainda não comecei, existe a possibilidade de que aquilo fique exatamente como imaginei. Depois que começo, aparecem as limitações, os erros, as dúvidas e as imperfeições. Então, inconscientemente, pode parecer mais confortável adiar. O problema é que aquilo que deveria nos ajudar a alcançar um resultado melhor acaba nos afastando dele.
Talvez a questão seja que fazer bem feito não é o mesmo que fazer perfeito. Buscar qualidade no que fazemos, ser responsável, prestar atenção aos detalhes e procurar melhorar não são problemas. O problema é quando isso deixa de ser suficiente e o resultado precisa ser perfeito para considerarmos que fizemos um bom trabalho. Afinal, a perfeição é uma régua difícil demais para ser usada como comparação. Normalmente, resultados perfeitos são a exceção, não a regra.
Quando usamos a perfeição para medir tudo o que fazemos, podemos acabar passando uma vida toda olhando para o que ainda falta, em vez de perceber o quanto já caminhamos e o quanto melhoramos. Já falamos sobre comparação por aqui, sinta-se a vontade para continuar a conversa lá.
Talvez possamos parar um pouco de nos perguntar somente “como eu poderia ter feito tal coisa melhor?” e também começar a avaliar o que conseguimos fazer de melhor dentro das possibilidades que tínhamos. Veja bem, não estou dizendo que procurar melhorar seja uma coisa ruim, muito longe disso. Mas, se pensarmos só nisso, abrimos espaço para cada vez mais cobrança. Por isso, é preciso sermos justos conosco e reconhecermos nossas limitações e circunstâncias, para avaliarmos com honestidade aquilo que conseguimos realizar.
Então, entenda: nem tudo precisa ser perfeito. Existe uma liberdade imensa em finalmente perceber que, pelo menos algumas coisas, podem simplesmente ficar boas. Não excelentes. Não impecáveis. Apenas boas.
Uma tarefa pode não sair exatamente como imaginamos e, ainda assim, cumprir seu propósito. Uma foto pode não sair perfeita e, ainda assim, guardar uma lembrança boa. Uma decisão pode não ser a melhor possível e, ainda assim, ter sido a melhor decisão que conseguíamos tomar naquele momento.
Isso não significa deixar de tentar melhorar. Significa entender que melhorar e se cobrar sem limites são coisas diferentes. Porque, no fim das contas, o perfeccionismo pode até nos empurrar para frente, mas, se a cobrança for maior do que a nossa capacidade de reconhecer o caminho percorrido, talvez a gente chegue cada vez mais longe sem nunca conseguir sentir que chegou a algum lugar.
Talvez algumas coisas na vida não precisem ser perfeitas. Só precisem ser vividas.

Participe da conversa com seu comentário!