A produtividade que invade o tempo livre.

Fazendo algumas horas complementares para a faculdade um dia desses, estava assistindo a um podcast no qual as professoras traziam um tema muito pertinente: a nossa constante autocobrança por produtividade e a importância de termos momentos de lazer, hobbies e coisas que nos dão prazer para “descarregar”. Elas traziam relatos muito semelhantes a como eu muitas vezes me senti e, imagino, a como você provavelmente também se sentiu.

Afinal, quem nunca, quando finalmente conseguiu um tempo livre em meio a todas as atribuições do cotidiano, se viu sentado para assistir a alguma coisa ou foi fazer outra atividade para se distrair e ouviu uma voz na cabeça dizendo algo como: “Você poderia estar fazendo algo mais útil.”?

Parece que existe algo meio perverso na ideia de produtividade que temos atualmente: até mesmo o descanso precisa ser justificado. Parece que não podemos mais simplesmente assistir a uma série porque estamos com vontade; isso precisa vir acompanhado da ideia de que, fazendo isso, ficaremos mais relaxados e, por consequência, seremos mais produtivos no dia seguinte. Não podemos jogar um jogo simplesmente porque o achamos divertido; precisamos transformar a atividade em “tempo de qualidade”. Não podemos mais ler um livro de ficção, porque os livros deveriam servir para ampliar algum conhecimento.

Nisso, até os hobbies se tornaram muito mais estruturados e passaram a precisar resultar em alguma coisa. Não podemos mais fazer algo simplesmente porque gostamos, mesmo que não resulte em nada. Parece que hoje, para ser considerado um hobby, aquilo precisa acrescentar alguma coisa. Por isso, só são considerados válidos hobbies como aprender um novo idioma, praticar uma atividade física ou tocar um instrumento. Eles precisam resultar em alguma coisa e, nisso, algo que deveria apenas distrair, ocupar o tempo livre e dar prazer se torna mais uma cobrança. E aí até o lazer consegue virar trabalho.

Será que a gente desaprendeu a fazer coisas que não servem para nada? Porque “não servir para nada” não precisa, necessariamente, ser algo negativo. Na verdade, uma coisa pode não gerar dinheiro, conhecimento, condicionamento físico, seguidores, acréscimos ao currículo ou qualquer outro benefício mensurável e, ainda assim, fazer bem para quem somos. Nem tudo precisa produzir alguma coisa, porque lazer não precisa ser um investimento. Ele pode ser simplesmente isso: lazer.

É preciso também diferenciar descanso de recompensa, pois existe uma lógica de que primeiro precisamos cumprir tudo o que temos para fazer e, somente depois, se sobrar tempo, podemos descansar. Só que a lista de afazeres nunca acaba! Sempre há algo que precisa ser feito, algo que poderíamos estar aprendendo ou alguma coisa na qual deveríamos estar melhorando. Dentro dessa lógica, o descanso se torna uma espécie de prêmio que nunca conquistamos.

Além disso, precisamos falar sobre “produtividade”, porque ela deixou de significar apenas produzir no trabalho e começou a invadir praticamente todos os espaços de nossas vidas. Agora, até o nosso tempo livre precisa ser otimizado e, nisso, a gente acaba passando tanto tempo trabalhando para construir uma vida melhor que, às vezes, deixa de viver a vida que está construindo.

E não, não estou aqui para demonizar a produtividade. Não quero dizer que devemos empurrar a vida “com a barriga” ou viver à toa. O problema não é necessariamente trabalhar, querer evoluir, aprender mais e conquistar as coisas — muito pelo contrário, isso é muito bom e resulta em bons frutos para nossas vidas. Porém, quando não conseguimos mais existir sem a sensação de que deveríamos estar fazendo alguma coisa, aí temos um problema. Porque, mesmo quando sabemos racionalmente que precisamos descansar, emocionalmente ainda podemos sentir que estamos “perdendo tempo”.

É muito engraçado pensar nisso, porque não é como se houvesse alguém nos monitorando e cobrando que fôssemos mais produtivos: não são outras pessoas, somos nós mesmos. Por experiência própria, uma vez estava comentando com meu marido que, por ser a louca que sou e gostar de fazer trocentas coisas diferentes, sentia que não estava dando conta de tudo e que estava sendo improdutiva. Ele me questionou: “Quem está te cobrando?”. Aí é que está: somos nós mesmos que estamos nos cobrando, nos policiando e, consequentemente, não nos dando o direito de simplesmente descansar, relaxar e nos distrair.

E não acho que isso seja somente algo dos dias de hoje. Se pararmos para pensar, antigamente já existia aquele ditado: “Deus ajuda a quem cedo madruga”. Havia a ideia de que temos que levantar cedo, começar o dia com o pé direito e que é praticamente um crime querer passar um tempo a mais na cama pela manhã, quando podemos. Mas talvez descansar não seja o oposto de aproveitar o tempo. Talvez seja apenas mais uma das formas de aproveitá-lo.

Por isso, indo um pouco além da ideia de aproveitar o tempo livre, permita-se descansar. O descanso é muito importante para o nosso bem-estar. Sei que existem diferentes realidades e que, em muitas delas, pode ser difícil encontrar esse tempo. Mas permita-se ser mais gentil consigo mesmo e, dentro das suas possibilidades, dar-se o devido descanso — sem transformá-lo em mais uma técnica de produtividade.

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