Cansaço é cansaço, e ponto.

Já falamos por aqui sobre o descanso algum tempo atrás. Falamos sobre ele não ser necessariamente algo que precisamos conquistar fazendo tudo aquilo que tínhamos para fazer e, “de quebra”, ainda adiantando algumas coisas para só então podermos “descansar mais em paz”. Também falamos sobre aquela ideia de descanso como uma espécie de ferramenta para podermos ser mais produtivos depois — se quiser conferir o assunto com mais detalhes, talvez valha a pena ler “parar sem culpa” depois deste.

Porém, quando falamos sobre descanso, não nos aprofundamos muito no cansaço em si, e é isso o que vamos fazer aqui.

Mas por que falaremos sobre cansaço? Ele não é suficientemente óbvio? Se estamos cansados, não basta apenas descansar? Talvez tirar um dia de folga, diminuir o ritmo, relaxar no sofá, tomar um banho quente ou, simplesmente, se deitar e dormir?

Bom, a princípio, sim — se for cansaço físico. Quando o corpo fica exausto, instintivamente já sabemos o que fazer. O próprio cérebro manda sinais avisando que “é hora de parar por hoje”, tal qual ele avisa quando precisamos nos alimentar, através da sensação de fome e da barriga emitindo roncos sonoros. Isso porque tanto o descanso quanto a alimentação são formas de recuperarmos nossas energias, e isso é uma questão de sobrevivência.

Mas e quando descansamos, dormimos o suficiente, tiramos um final de semana de folga, respeitamos nosso corpo quando sentimos aquela sensação de “não dá mais” e, mesmo assim, ainda nos sentimos cansados e, às vezes, até irritadiços, confusos ou desanimados — talvez até tudo ao mesmo tempo?

A questão é que nem todo cansaço se resolve dormindo. Existe, como já disse, o cansaço físico, que sim, se resolve dessa forma: com cama, sono e recuperação. Mas tem aquele cansaço que vem de pensar demais, de resolver problemas demais, de lidar com coisas demais ao mesmo tempo, de sentir coisas demais ao mesmo tempo… Esse tipo de cansaço não se resolve apenas dormindo.

O cansaço mental, que surge quando estamos sobrecarregados de coisas para lidar, cheios de preocupações, problemas para resolver, informações para processar e cobranças para responder. Parece que a cabeça está o tempo inteiro ligada. Esse tipo de cansaço é bem comum na vida adulta, quando temos uma série de responsabilidades para dar conta, como trabalho, casa, contas para pagar, filhos, casamento… E, no meio disso, ainda temos que dar um jeito de cuidar de nós mesmos. Fora o fato de temos constantemente uma pressão para não falhar em nenhuma dessas coisas, pois, se algo sair do eixo, será mais um problema que nós mesmos teremos que resolver.

Já o cansaço emocional é aquele que vem quando lidamos constantemente com frustrações, conflitos, relacionamentos não muito saudáveis, expectativas difíceis de superar, inseguranças… Não é necessariamente tristeza; é mais como aquela sensação de estar de “saco cheio”, conhece? Ela comumente surge de alguma relação tóxica, seja um chefe no emprego que não nos reconhece, um filho que não nos respeita, um companheiro que não nos valoriza, um amigo que nos coloca pra baixo ou, ainda, até a gente mesmo, alimentando nossa insegurança e diminuindo nossa autoestima.

E, apesar de serem coisas diferentes, não significa que esses tipos de cansaço vivam em compartimentos separados. Um pode acabar alimentando o outro. Pois, digamos que você esteja mentalmente cansado e, por isso, não esteja dormindo bem. Você acorda fisicamente cansado e acaba ficando irritadiço, de uma forma que pequenas coisas passam a lhe incomodar. Logo, também começa a ficar emocionalmente cansado. É aí que você, de repente, se pega pensando: “Mas eu nem fiz muita coisa hoje, como posso estar tão cansado?”. Simples: porque fazer coisas não é a única forma de gastar energia.

Às vezes, o que está cansado não é o nosso corpo. Às vezes, ainda nem é só a nossa cabeça, é o conjunto inteiro. Há momentos em que não é apenas o corpo que precisa de um descanso; é a mente que precisa parar de trabalhar um pouco.

E por que decidi abordar esse assunto? Porque vejo, muito comumente, que, devido ao conceito que temos de descanso, somente o cansaço físico é legitimado. Muitas vezes, se não carregamos peso, não fizemos esforço físico e não tivemos um dia “puxado”, não é compreendido ou sequer aceito que tenhamos cansaço. É como se tivéssemos que provar o nosso cansaço através de um checklist para que ele seja validado e, só depois de validado, é que conquistamos o direito de descansar. É aí que mora o grande problema.

Seja por ter o cansaço invalidado ou até por não reconhecer o próprio cansaço, muita gente acaba indo até o limite e, às vezes, quando consegue, até ultrapassa esse limite. Mas simplesmente não reconhecer um problema não faz com que ele desapareça, e o mesmo vale para o cansaço. Quando chegamos ao limite, o corpo até continua funcionando, mas a conta chega, porque conseguir continuar não é o mesmo que estarmos bem para continuar.

E nem sempre o limite do cansaço mental ou emocional é o colapso, e é por isso que, muitas vezes, a pessoa não para: justamente porque ainda consegue funcionar. Tanto o corpo quanto a mente não deveriam precisar chegar ao extremo para que finalmente consideremos legítimo descansar.

Enfim, talvez o problema não seja termos chegado ao nosso limite. Talvez seja termos aprendido a considerar o limite somente depois que já o ultrapassamos. Portanto, entenda: cansaço é cansaço e ponto.

Por que eu digo isso? Porque já me deparei com situações em que alguém tenta invalidar o cansaço do outro, seja por não compreender que o cansaço mental ou o cansaço emocional de fato existem, ou por querer comparar com seu próprio cansaço, como se fosse uma competição e pudesse haver algum vencedor — “eu estou mais cansado, logo o seu não tem importância”.

Já passou por algo assim? Bom, mas esse é um assunto para outra conversa.

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