Quando conversar vira um jogo de adivinhação…

Essa semana, falamos por aqui sobre aquele costume que algumas pessoas têm de esperar que o outro saiba o que elas querem, o que esperam do outro, sem comunicar — apenas esperando que o outro já saiba, como se tivesse uma bola de cristal para adivinhar. Porém, lá falamos explicitamente sobre pessoas que deixam de se comunicar com clareza porque acham que o outro deveria saber, que a comunicação é desnecessária, que não precisam falar de forma mais objetiva.

Hoje, vamos olhar mais pelo lado de quem acaba falhando na comunicação pela própria dificuldade de dizer algumas coisas. Seja pelo motivo que for, a pessoa até tenta se comunicar, mas acaba dizendo “A” quando, na verdade, queria dizer “B”. Não é muito clara nem objetiva e, aí, o que resta para quem tenta compreender são apenas algumas peças soltas de um quebra-cabeça. Parece que muitas vezes, quem está falando acredita que algumas coisas estão implícitas, mas não estão. Eu já vivi uma situação assim e posso afirmar: é extremamente frustrante ficar tentando compreender o que o outro diz, tentando enxergar o que deveria estar implícito ali.

Em certo dia, recebi um pedido de uma pessoa que se mudaria, dali a alguns dias, para perto de mim: deixar algumas malas aqui em casa até o final de semana — ou seja, por dois dias. Coisa boba, não é? Por que eu diria “não”? Acontece que não era bem isso — definitivamente, não era. Resumo: foram dez dias, a mudança inteira e a própria pessoa hospedada aqui nesse período, sem um plano muito claro sobre o que faria dali para frente.

O mais curioso dessa história é que ninguém necessariamente estava mentindo. Mas havia uma lacuna enorme entre o que foi comunicado e o que realmente era. Existe uma grande diferença entre não dizer alguma coisa e não conseguir dizer claramente aquilo que precisamos dizer. E essa diferença pode causar muita confusão.

Claro que somos humanos, e nem todos temos facilidade para dizer o que queremos, precisamos ou esperamos de uma situação. Como no caso que citei, algumas pessoas têm medo de incomodar — e nisso acabam omitindo informações. Já outras têm medo de parecer grosseiras — e nisso tentam lidar com a situação com as poucas informações que tem.

Há quem tenha dificuldade de dizer “não” e, por isso, prefira deixar as coisas meio em aberto. Há também quem receie a reação do outro e tente suavizar tanto o que precisa dizer que, no final, a informação principal acaba desaparecendo no meio do caminho.

A questão é que existem pessoas que simplesmente não sabem muito bem como colocar em palavras aquilo que elas estão pensando. Só que, quando não somos claros na forma como nos comunicamos, deixamos para o outro a tarefa de preencher as lacunas, e cada um tende a fazer isso de um jeito diferente. “Vou ficar dois dias” significa exatamente isso para quem ouve: dois dias. Se a intenção era dizer “vou ficar alguns dias, mas ainda não sei quantos”, então era isso que precisava ser dito. Até parece óbvio depois que a situação já aconteceu, mas a verdade é que, na hora, nem sempre é.

Talvez uma das coisas mais complicadas na comunicação seja que acreditamos mesmo que estamos sendo claros. Dentro da nossa cabeça, existe todo um contexto. Sabemos o que estamos pensando, o que queremos, o que sentimos e o que estamos tentando dizer. Só que a outra pessoa não tem acesso a nada disso; ela recebe apenas aquilo que conseguimos colocar para fora. É como entregar a alguém três peças de um quebra-cabeça e esperar que ela consiga enxergar a imagem inteira. Às vezes, ela pode até conseguir. Mas, às vezes, pode montar uma imagem completamente diferente.

Essa falha na comunicação acontece muito nas relações:

  • “Depois a gente vê.”
  • “Qualquer coisa eu te aviso.”
  • “É rapidinho!”
  • “Não precisa se preocupar.”
  • “Eu queria conversar sobre uma coisa, mas deixa pra lá…”

São frases que podem parecer simples, mas também podem esconder muita coisa. E, quando aquilo que está escondido é justamente o que o outro precisava saber, é que começam os desencontros.

Talvez parte dessa dificuldade venha da ideia de que falar claramente é ser duro ou inconveniente. Mas, na verdade, ser claro e verdadeiro é uma forma de respeito com o outro. Quando somos transparentes, damos ao outro a oportunidade de entender o que está acontecendo e também de decidir como lidar com aquilo. Porque o problema não é pedir alguma coisa, o problema é fazer com que o outro tenha que descobrir que havia um pedido escondido em algo que parecia dizer outra coisa.

Comunicação não é apenas falar, mas é também conseguir transformar aquilo que existe dentro da nossa cabeça em algo que o outro possa compreender. E, claro, eu sei que isso nem sempre é fácil. Talvez seja melhor enfrentar um pequeno desconforto ao dizer claramente o que queremos do que lidar, depois, com um grande desconforto por descobrir que o outro entendeu outra coisa. No fim das contas, nem todo problema de comunicação acontece apenas porque alguém espera que tenhamos uma bola de cristal. Às vezes, acontece porque a pessoa até tentou nos contar o que queria, só que se esqueceu de explicar direito.

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