Entre a discordância e a ofensa…
Existe um fenômeno que parece estar se tornando mais presente e intenso nas pessoas — talvez devido à polarização, talvez porque as pessoas já não pensem tanto por conta própria e simplesmente repitam o que é dito dentro de suas respectivas bolhas, talvez pelo enaltecimento de certas personalidades e ideias… Bom, são uma série de fatores que podem estar causando isso. Não é algo novo, mas parece estar ganhando força: além de levar tudo para o pessoal, como já foi abordado em outro texto por aqui, as pessoas têm levado isso a outro nível, o de se ofender facilmente com qualquer coisa. Não que isso seja algo que já não existisse antes, mas hoje parece que as pessoas precisam de muito menos para se sentirem ofendidas.
Não quero generalizar. Claro que muitas vezes tomamos algumas dores que não são nossas, e isso é totalmente normal, principalmente quando se trata de uma pessoa importante para nós — um parente próximo, um amigo — ou de um gosto pessoal nosso… Faz parte. Mas há pessoas que levam isso a extremos: se ouvem algo sobre alguém que admiram — e não precisa nem ser um familiar ou alguém próximo, da mesma forma que também não precisa ser algo deliberadamente ofensivo —, às vezes apenas uma opinião diferente da delas já é o suficiente para se sentirem e agirem como se a mãe delas tivesse sido brutalmente ofendida.
Bom, sei que comecei com um exemplo um tanto exagerado e que mescla um pouco com a idolatria e a generalização exageradas que vemos hoje em dia. Porém, abordarei melhor esses assuntos em outras conversas. Hoje, vamos falar sobre interpretar como ofensa pessoal coisas que, muitas vezes, não são ofensas e que nem sequer são sobre nós. Claro que já vou adiantando aqui: também não estou dizendo que você deva simplesmente aceitar ofensas abertas a você e àqueles com quem se importa — definitivamente não é isso.
A questão aqui é como a simples discordância vem sendo transformada em ofensa. Já não se trata mais apenas de “eu interpretei algo que você disse como sendo algo sobre mim”, mas de algo como “se você não concorda comigo, logo está contra mim e contra tudo o que sou e o que eu valorizo”. E, embora vejamos isso acontecer com mais ênfase dentro das bolhas políticas, esse fenômeno está presente em diversos lugares do nosso cotidiano e de nossas conversas.
Porém, é preciso compreender que opinião é opinião e ofensa é ofensa. Simples assim. Uma pessoa ter uma opinião diferente da sua, ter um gosto diferente do seu, enfim, ser diferente de você não significa que ela esteja, de fato, tentando te ofender. Opinião não é ataque: não gostar de um determinado filme, por exemplo, não significa dizer que quem gosta daquele filme é burro. Da mesma forma, discordância não é uma forma de desrespeitar o outro. Duas pessoas podem ter pontos de vista diferentes, olhar para uma mesma situação e chegar a conclusões diferentes sem que seja necessário que uma diminua a outra por isso.
E, por fim, nem toda discordância precisa ser resolvida: duas pessoas podem simplesmente discordar sobre um assunto, ter opiniões diferentes, e está tudo bem — lembrando que as coisas não são oito ou oitenta. Muitas vezes, uma opinião diferente não significa uma opinião contrária, mas apenas isso: diferente.
Além disso, gostar de uma coisa não te dá propriedade sobre aquilo. O que quero dizer com isso? Bom, vejo que há pessoas que se tornam adeptas de alguma coisa — de jogar videogame, por exemplo — e, ao escolher um console, acham ofensivo quando alguém diz preferir outra plataforma, seja outra marca de console ou outro tipo de dispositivo. Há quem se ofenda como se fosse o dono da marca de console — imagino até que os próprios donos das marcas não se ofendam tanto quanto alguns membros de comunidades de consoles por aí…
Outra coisa é que o fato de gostarmos de algo não deveria significar que todos à nossa volta fossem obrigados a gostar também. Há quem se ofenda porque as pessoas à sua volta não compartilham do mesmo gosto por bandas, artistas, filmes e até mesmo comida. Já vi gente se sentir ofendida por eu não gostar de frutos do mar, e eu não disse nada que pudesse ofender a pessoa. Não disse que a comida dela era ruim, que o gosto dela para comida era ruim, nem havia demonstrado insatisfação por camarão, por exemplo, ser oferecido a mim. Mas comumente vi pessoas se sentirem ofendidas com meu simples “não, obrigada”, tanto que hoje acho mais fácil dizer que sou alérgica a frutos do mar do que dizer que não gosto — as pessoas aceitam muito melhor. Ah, e não, o meu “não, obrigada” sequer vinha seguido de “eu não gosto”.
A questão é que parece que gostar de uma coisa ou desgostar de outra virou traço de personalidade — quando, na verdade, não é. Gostos e preferências nada mais são do que isso; não são identidade. Só que, quando um gosto é compreendido como um traço da identidade da pessoa, o simples fato de você não gostar daquela determinada coisa — e, bom, não gostar aqui é apenas isso, não é odiar — pode soar, na cabeça de algumas pessoas, como “eu não gosto disso que você gosta” e ser interpretado como uma rejeição a elas, quando, na verdade, não representa isso.
Todos os exemplos citados até aqui podem até parecer um pouco desconexos, mas a verdade é que se trata do mesmo mecanismo acontecendo, apenas em graus diferentes.
Creio que, inicialmente, para pararmos de nos ofender com tudo e com todos, é preciso aprender a separar aquilo de que a pessoa gosta da pessoa em si. Uma crítica a uma ideia, um produto, um personagem, um jogo, um partido, uma personalidade, uma comida ou um estilo musical não é automaticamente uma crítica aberta a quem gosta dessas coisas — ou, pelo menos, não deveria ser.
As diferenças que temos uns dos outros são o que nos torna indivíduos únicos e o que pode agregar a muitas conversas que temos com outras pessoas. Porque imagine diálogos em que todo mundo tem absolutamente os mesmos gostos e opiniões… As diferenças que temos não deveriam ser objeto de disputa; deveriam ser objeto de trocas.
Para finalizar, é claro que existem opiniões que são ofensivas de fato. Não estou dizendo que não podemos nos ofender com absolutamente nada. Mas há diferença entre alguém simplesmente não gostar de algo e alguém deliberadamente humilhar outra pessoa por causa daquilo. O ponto é justamente não colocar os dois acontecimentos no mesmo bolo. Talvez a pergunta que fique hoje seja: “quando alguém discorda de mim, eu consigo ouvir apenas uma opinião diferente — ou imediatamente sinto que estão me atacando?”

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