Aparentemente, algumas pessoas se sentem muito à vontade para determinar o rumo da vida alheia. Às vezes, são desconhecidos que mal sabem nosso nome. Em outras ocasiões, são parentes, amigos ou conhecidos que acreditam saber o que seria melhor para nós, talvez até mais do que nós mesmos.
Claro que, não estou dizendo que essas pessoas necessariamente agem por mal. Muitas vezes, elas apenas estão convencidas de que conhecem o melhor caminho a seguir. O problema é que, mesmo quando existe uma boa intenção por trás de um conselho, não significa que ele faça sentido para quem o recebe. Afinal, cada pessoa tem sua própria história, suas prioridades e sua maneira de enxergar o que é uma vida bem-sucedida.
Quando alguém decide o que deveríamos fazer
Lembro de uma situação que vivi quando estava no início dos vinte anos. Uma parente distante, com quem eu não tinha muita convivência, começou a me recomendar que prestasse um determinado concurso público que abriria em breve. Segundo ela, na minha idade eu já deveria começar a construir uma carreira, comprar meu carro e meu apartamento. Em outras ocasiões, ela também havia se convidado a dar opiniões sobre se e quando eu deveria me casar ou ter filhos. O detalhe é que, quando recebi aquelas recomendações, eu já estava construindo minha vida havia algum tempo — mas, aparentemente, ela não sabia disso.
Mas é claro, consigo compreender que suas falas não fossem mal intencionadas, que apenas estivessem relacionadas às próprias experiências e conquistas, das quais ela se orgulhava. Talvez, na visão dela, estivesse apenas apontando oportunidades que poderiam me proporcionar uma vida bem-sucedida como a dela. Mas existe uma diferença entre dar um conselho e presumir que sabemos o que outra pessoa deveria fazer.
Porque, mesmo com a melhor das intenções, isso não significa conhecer as necessidades, planos ou as escolhas da outra pessoa. Quando a realidade em que a outra pessoa é ignorada, corremos o risco de oferecer respostas para perguntas que nem sequer foram feitas.
Quando a experiência pessoal vira medida para os outros
É natural que nossas experiências influenciem a maneira como aconselhamos as pessoas. Aquilo que conquistamos com esforço, os erros que cometemos e as decisões das quais nos orgulhamos acabam moldando nossa visão de mundo.
Quem encontrou estabilidade por meio de um concurso público pode acreditar que esse é um dos melhores caminhos para construir uma vida segura. Quem conquistou independência financeira cedo pode considerar importante que outras pessoas façam o mesmo. Quem encontrou felicidade no casamento pode desejar que os outros também vivam essa experiência.
Não há nada de errado em valorizar essas conquistas ou compartilhar os aprendizados que vieram com elas. O problema começa quando transformamos nossa experiência em um modelo que todos deveriam reproduzir.
Afinal, não conhecemos todos os detalhes que levam alguém a fazer suas escolhas. Talvez seus objetivos sejam diferentes dos nossos, a prioridade esteja em outras áreas da vida ou a outra pessoa até já tenha conquistado aquilo que desejava, mesmo que não corresponda às expectativas de quem está de fora.
Quando o incentivo vira cobrança
Pessoas que gostam de nós geralmente desejam que tenhamos segurança, conforto e uma vida da qual possamos nos orgulhar. Por isso, podem sugerir que façamos determinadas coisas em nossas vidas. É claro que, receber incentivo pode ser importante, principalmente quando estamos inseguros ou ainda não conseguimos enxergar nossas próprias possibilidades. Porém, até um conselho otimista pode se transformar em cobrança quando desconsidera aquilo que queremos ou as condições em que vivemos. Uma pessoa pode acreditar sinceramente que está nos incentivando a crescer, enquanto nós sentimos que estamos sendo pressionados a alcançar algo que nem sequer é uma prioridade no momento.
A verdade é que existe uma grande diferença entre alguém nos dizer que poderíamos tentar uma nova oportunidade e nos fazer sentir que estamos desperdiçando nosso potencial por não ouvi-las. O mesmo vale para as expectativas relacionadas à idade, à carreira, ao casamento e à formação de uma família. Mesmo quando vêm de pessoas que nos querem bem, essas recomendações podem reforçar a ideia de que existe um roteiro que deveríamos seguir para que nossa vida seja considerada bem-sucedida.
Mas será que precisamos transformar todas as possibilidades que alguém enxerga para nós em objetivos pessoais? Bom, creio que ter pessoas torcendo por nós é, de fato, muito valioso. Só que isso não significa que elas precisem escolher por nós.
Como lidar com opiniões alheias sem se sentir obrigado a concordar
Não precisamos adotar uma postura defensiva sempre que alguém sugere algo que poderíamos fazer. Às vezes, uma conversa nos apresenta uma possibilidade que realmente interessante. Em outras ocasiões, alguém percebe uma dificuldade que não havíamos nos dado conta ainda ou nos incentiva a tentar algo que, mesmo querendo, não tínhamos coragem de começar.
O importante é perceber que tudo bem receber uma sugestão, mas que não somos obrigados a aceitá-la. Podemos escutar o que a outra pessoa tem a dizer e até reconhecer que vem de alguém com mais experiência, mas sem concluir que essa pessoa sabe, melhor do que nós, o que deveríamos fazer com a nossa própria vida.
E, quando um conselho recebido não fizer sentido, não precisamos necessariamente transformar a discordância em um conflito. Nem toda opinião precisa ser rebatida, às vezes, basta agradecer, considerar o que foi dito e seguir tomando nossas próprias decisões.
Nossa vida não precisa seguir o roteiro de outra pessoa
Ao longo da vida, encontraremos pessoas que terão opiniões sobre nossas escolhas. Algumas vão nos incentivar a arriscar mais; outras tentarão nos proteger de qualquer possibilidade de fracasso. Haverá quem considere nossas conquistas insuficientes e quem enxergue potencial em caminhos que nem sequer pensamos em seguir.
Talvez amadurecer também envolva compreender que as pessoas podem querer o nosso bem e, ainda assim, não saber exatamente o que é melhor para nós. Elas enxergam nossa vida a partir do lugar que ocupam, das experiências que tiveram e dos valores que cultivaram. Nós, por outro lado, precisamos lidar diariamente com as consequências das nossas escolhas. Por isso, ouvir alguém não significa entregar a essa pessoa a responsabilidade de decidir nosso futuro.
No fim das contas, uma vida bem-sucedida não precisa ser uma cópia da vida de alguém que admiramos. Como já falamos por aqui, podemos reconhecer o valor das conquistas alheias sem transformá-las em uma medida para avaliar a nossa própria vida. Bem como construir o próprio caminho não significa rejeitar tudo o que os outros têm a oferecer, mas aprender a distinguir aquilo que nos ajuda daquilo que apenas corresponde às expectativas alheias.
As pessoas até podem apontar caminhos, compartilhar suas experiências e torcer por nossas conquistas. Mas ninguém precisa viver a nossa vida por nós.

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