Às vezes parece que todo mundo está mais adiantado que a gente. Uma pessoa comprou uma casa. Outra mudou de emprego. Alguém começou uma faculdade. Outra está viajando, casando, tendo filhos, abrindo um negócio, aprendendo alguma coisa nova. E, de repente, mesmo sem perceber exatamente quando isso aconteceu, surge aquela sensação incômoda de que deveríamos estar em algum outro lugar da nossa vida. É quase como se existisse uma espécie de linha de chegada e todo mundo estivesse alguns passos à nossa frente.
Nós já conversamos um pouco sobre a comparação por aqui, quando falamos sobre como é fácil comparar o nosso bastidor com o resultado que conseguimos enxergar da vida dos outros. Também falamos sobre como costumamos olhar muito mais para aquilo que ainda não temos do que para aquilo que já conquistamos.
Mas existe uma pergunta que talvez venha antes de todas essas: E se eu nem quisesse aquilo?
Porque, às vezes, vemos alguém conquistando alguma coisa e imediatamente transformamos aquela conquista em uma medida para a nossa própria vida. Se alguém compra uma casa, logo pensamos que também deveríamos comprar uma. Se alguém é promovido, começamos a questionar por que ainda estamos onde estamos. Se alguém viaja para um lugar incrível, de repente, a nossa própria rotina começa a parecer sem graça. Parece que cada escolha feita pelas pessoas ao nosso redor acaba se transformando, sem que sequer percebamos, em uma espécie de cobrança para avançarmos.
Será que queríamos mesmo aquilo antes de ver outra pessoa fazendo?
Essa é uma pergunta muito importante, porque nem sempre a resposta é sim. Talvez aquela viagem nunca tenha estado nos seus planos. Talvez você não seja o tipo de pessoa que realmente queira abrir e administrar uma empresa. Talvez não esteja procurando um relacionamento neste momento, não tenha planos de comprar a casa própria ou não queira mudar de carreira. Talvez você simplesmente tenha visto alguém fazendo e, por alguns instantes, confundido admirar uma coisa com desejar aquela coisa para si — duas situações bem diferentes.
Podemos olhar para a vida de alguém e pensar: “Que legal! Eu gostaria de viver algo assim”. Mas também podemos pensar: “Que legal para essa pessoa, mas eu não faria isso”. O problema é que, quando estamos acostumados a nos comparar, nem sempre damos espaço para essa segunda possibilidade. Parece que, se alguém está caminhando em determinada direção, nós também deveríamos seguir naquela direção, como se existisse um caminho certo para a vida adulta e cada pessoa estivesse apenas em uma parte diferente dele. Só que a vida não funciona assim. Não existe uma lista universal de coisas que deveríamos ter feito até determinada idade.
Como parar de se comparar?
Entender que nem tudo aquilo que admiramos precisa se tornar um objetivo pessoal já é um começo. Mas como colocar isso em prática quando a comparação parece acontecer quase automaticamente?
Talvez o primeiro passo seja aprender a reconhecer quando estamos fazendo isso. Perceber o que despertou aquela sensação de insatisfação e tentar entender de onde ela vem. Foi realmente algo que sentimos vontade de conquistar ou apenas vimos alguém conquistando e começamos a questionar a nossa própria vida?
É muito importante que a gente preste mais atenção às nossas próprias escolhas. O que realmente queremos? O que faz sentido para a nossa vida, para os nossos planos e para as nossas possibilidades? Precisamos entender que acompanhar a vida de outras pessoas não significa que também tenhamos que seguir o mesmo ritmo delas, porque cada um tem suas próprias circunstâncias, suas próprias prioridades, suas próprias oportunidades e suas próprias dificuldades. Mesmo que tenhamos objetivos semelhantes, os caminhos quase nunca serão os mesmos.
Claro que, isso não significa que não possamos admirar as conquistas alheias e muito menos que deveríamos nos acomodar com aquilo que temos. Podemos nos inspirar, aprender com outras pessoas e até encontrar nelas a motivação para começar algo novo. A diferença está em não transformar essas referências em cobranças ou medidas do nosso próprio valor.
Afinal, reconhecer que alguém conquistou algo que gostaríamos de ter não precisa significar que estamos fracassando por ainda não ter conseguido. Podemos simplesmente reconhecer aquela conquista, entender se ela também faz parte dos nossos planos e, se sim, encontrar nosso próprio caminho até ela.
Talvez também seja necessário fazer algumas pausas nas comparações que alimentamos diariamente. Se acompanhar determinados perfis nas redes sociais faz com que você esteja constantemente questionando a própria vida, vale a pena repensar esse hábito. Não precisamos acompanhar tudo, saber de tudo ou estar o tempo todo olhando para o que acontece na vida dos outros.
No fim das contas, parar de se comparar não significa deixar de olhar para fora, mas aprender a não perder de vista aquilo que acontece dentro da nossa própria vida. Não precisamos transformar cada conquista alheia em uma meta pessoal, nem cada caminho diferente do nosso em uma evidência de que estamos ficando para trás.
Talvez a questão não seja chegar antes, ter mais ou fazer as mesmas coisas que todo mundo, mas seja conseguir reconhecer o que realmente queremos construir e encontrar satisfação no caminho que escolhemos percorrer. Porque, antes de nos preocuparmos tanto em saber se estamos no mesmo lugar que os outros, precisamos ter certeza de que estamos caminhando na direção que realmente desejamos.

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