Mudar de ideia sobre o futuro nem sempre é tão simples quanto parece. Principalmente quando passamos muito tempo construindo planos, fazendo escolhas e nos preparando para chegar a um lugar que, até então, tínhamos certeza de que queríamos chegar. Afinal, é muito comum associarmos direção à definição de um destino.

Durante algum tempo, eu tive uma certeza sobre o que queria fazer da minha vida, profissionalmente falando. Não era apenas uma ideia distante ou um daqueles planos que fazemos sem pensar muito bem; eu realmente acreditava ter encontrado meu caminho.

Sempre tive muita afinidade com as ciências exatas, e quando comecei a assistir aos vídeos e documentários do Neil deGrasse Tyson fui me encantando cada vez mais pelo universo, pela cosmologia e por tudo aquilo que ainda temos a descobrir sobre o espaço. Em algum momento eu tive certeza: queria ser astrofísica.

Foi assim que, lá atrás, comecei meu bacharelado em Física. Paralelamente à graduação, aproveitava as horas complementares para fazer cursos de astronomia, astrofísica, cosmologia. Eu não estava apenas estudando para conseguir um diploma. Tinha planos de seguir na carreira acadêmica, chegar ao doutorado e trabalhar com aquilo que tanto me encantava.

Quando aquilo que desejamos deixa de fazer sentido

Até que, em uma conversa com um professor, comecei a enxergar as coisas por outra perspectiva quando ele contou sobre como era o trabalho de um astrofísico eu percebi que a realidade profissional era bem diferente da imagem que havia construído na minha cabeça.

A astronomia que tanto me encantava, com suas descobertas, observações e possibilidades, tinha também uma rotina muito mais voltada a análises, cálculos e horas diante de um computador. O professor comentou, inclusive, que muitas vezes a astronomia era mais prazerosa como hobby do que como profissão e falou também sobre as dificuldades de seguir carreira na área em um país com tão pouco incentivo. Aquilo me fez pensar.

Percebi que gostava muito de astronomia, mas talvez não gostasse tanto assim da vida profissional que teria de construir para trabalhar com ela. Continuei nesse curso por mais alguns meses, mas alguma coisa já havia mudado. O que antes me motivava começou a pesar. A graduação, que até então fazia parte de um projeto que me empolgava, passou a consumir uma energia que eu já não tinha vontade de investir daquela maneira. E, quando finalmente decidi deixar aquele caminho para trás, senti um certo pesar, mas também um grande alívio.

O peso de abandonar um plano

Demorei um pouco para entender o motivo. Afinal, estava desistindo de algo que havia desejado muito, pelo qual havia me dedicado e que, durante um bom tempo, representou tudo aquilo que eu imaginava para o meu futuro.

Mas talvez o problema estivesse justamente aí. Pois, em algum momento, meu objetivo deixou de ser trabalhar com astrofísica e passou a ser poder dizer que eu era física, acadêmica, cientista. Eu havia me apegado tanto à imagem de quem gostaria de ser que já não conseguia distinguir se ainda desejava aquele caminho ou se apenas não queria abrir mão daquilo que havia planejado. E acho que isso acontece mais do que imaginamos.

Às vezes, não insistimos em alguma coisa porque ainda queremos aquilo, mas porque já investimos tanto tempo, esforço e colocamos tanta expectativa que parece pura tolice voltar atrás. Mas será mesmo?

Talvez por isso seja tão difícil aceitar que podemos mudar de ideia. Que aquilo que desejávamos em um determinado momento de nossas vidas pode deixar de fazer sentido em outro. E reconhecer isso não significa necessariamente que fizemos uma escolha errada.

Nem toda paixão precisa se transformar em profissão

Existe uma diferença entre desistir de algo porque encontramos dificuldades e perceber que aquilo já não corresponde mais ao que queremos. Nem sempre é fácil identificar essa diferença, mas vale a pena nos permitir essa observação.

Também não precisamos transformar todo interesse em profissão ou cada paixão em um projeto de vida. Algumas coisas podem simplesmente continuar sendo aquilo que são: interesses pelos quais temos curiosidade, atividades que nos dão prazer e assuntos sobre os quais gostamos de aprender. E foi isso o que aprendi com aquela experiência: nem tudo aquilo que amamos precisa se tornar o nosso caminho profissional, assim como nem todo caminho que começamos precisa ser levado até o fim.

Mudar de direção também faz parte da vida

A verdade é que, talvez, a gente não precise ter um plano definitivo, muito menos insistir em um que já não faz sentido apenas porque um dia tivemos certeza dele. Ter uma direção, talvez, não signifique saber exatamente onde queremos chegar, muito menos assumir um compromisso de permanecer naquele caminho para sempre, porque nossos desejos mudam e nossas perspectivas se transformam conforme amadurecemos.

Mesmo depois de passar algum tempo caminhando em uma determinada direção podemos, em algum momento, perceber que já não queremos mais chegar ao mesmo lugar. E tudo bem. Isso não significa que o caminho percorrido perdeu seu valor ou que precisamos encontrar imediatamente um novo destino.

Podemos experimentar, mudar de ideia, fazer novas descobertas e começar de novo. Podemos até não saber qual será o próximo destino. Porque ter direção não significa, necessariamente, saber exatamente onde queremos chegar, às vezes, significa apenas ter liberdade para reconhecer quando é hora de seguir por outro caminho.

Participe da conversa com seu comentário!

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Saiba como seus dados em comentários são processados.

Descubra mais sobre UM ASSUNTO PUXA O OUTRO

Assine agora mesmo para continuar lendo e ter acesso ao arquivo completo.

Continuar lendo