E se eu tivesse feito diferente? E se eu tivesse escolhido outro curso, aceitado aquela oportunidade que surgiu lá atrás, terminado aquele relacionamento antes ou decidido seguir por um caminho completamente diferente? Será que minha vida seria melhor hoje?

Em algum momento, provavelmente todos já nos fizemos perguntas assim. Às vezes, elas aparecem quando estamos insatisfeitos com alguma coisa; em outras quando precisamos tomar uma nova decisão e temos medo de que ela nos cause mais arrependimentos.

O problema é que, enquanto tentamos descobrir se fizemos a escolha certa ou errada no passado, ou se faremos a escolha certa agora, cometemos o erro de deixar de aproveitar aquilo que ainda está ao nosso alcance: o presente.

O peso das escolhas que já fizemos

É curioso como conseguimos imaginar inúmeras versões da vida que poderíamos ter vivido. O problema é que nem sempre consideramos os obstáculos que também poderiam ter aparecido nessas nossas “possibilidades imaginárias”. É muito fácil pensar que tudo teria sido melhor se tivéssemos feito as coisas de outra forma, mas simplesmente não temos como saber se isso é verdade. Talvez uma oportunidade que perdemos tivesse trazido mais satisfação. Ou talvez viesse acompanhada de dificuldades que sequer conseguimos imaginar hoje. Não tem como voltar no tempo para descobrir.

Isso, é claro, não significa que devemos ignorar nossos erros ou fingir que todas as decisões que tomamos até aqui foram boas. Olhar para trás pode até ser interessante para aprender com as experiências que tivemos. Apenas isso.

Afinal, ficar repassando mentalmente o que já aconteceu não muda o resultado. Se essa reflexão não nos ajuda a compreender algo ou a tomar uma atitude diferente daqui para a frente, estamos apenas gastando tempo e energia com uma possibilidade que nunca seremos capazes de verificar.

As escolhas que fizemos nos trouxeram até aqui e ponto. Podemos não gostar de todos os resultados, mas isso não significa que precisamos continuar presos a eles. O passado pode nos ensinar, mas não precisa se transformar em uma condenação.

E se eu me arrepender do que escolher agora?

Sem, por um lado, não podemos mudar as decisões que já tomamos, ainda temos a possibilidade de escolher o que faremos daqui para a frente. É justamente aí que surge outra dúvida: como tomar uma decisão sem saber se, no futuro, vamos nos arrepender dela? Bom, a verdade é que não temos como garantir isso.

Podemos analisar as possibilidades, considerar os riscos e buscar informações. Tudo isso ajuda a tomar decisões mais conscientes. Ainda assim, sempre haverá fatores que não conseguimos prever e circunstâncias que ainda podem mudar com o tempo. O medo de se arrepender, portanto, não desaparece imediatamente. Às vezes, mesmo depois de avaliar tudo o que está ao nosso alcance, podemos continuar inseguros.

E, na tentativa de evitar qualquer possibilidade de sofrimento, podemos começar a abrir mão de experiências que gostaríamos de viver. É aqui que vale a pena questionar uma ideia que aparece com frequência: a de que, para não sofrer, precisamos fugir de tudo o que pode dar errado – assunto que inclusive, já foi abordado por aqui.

Nem toda situação difícil merece ser enfrentada a qualquer custo, é claro. Existem riscos que precisam ser considerados, limites que devem ser respeitados e situações em que recuar é a decisão mais sensata. Mas também existe uma diferença entre agir com prudência e tentar construir uma vida na qual nada possa nos frustrar.

Quando transformamos a ausência de riscos em condição para tomar uma decisão, podemos acabar não tomando decisão nenhuma. Afinal, se só estivermos dispostos a fazer algo quando tivermos certeza de que tudo dará certo, quantas oportunidades precisarão ser deixadas para trás? Às vezes, para descobrir se um caminho faz sentido para nós, precisamos percorrê-lo, mesmo que só um pouco. E isso significa aceitar que nem todas as experiências terão o resultado que imaginávamos.

Sair da zona de conforto não significa dar um salto no escuro

Falar sobre enfrentar os próprios medos e sair da zona de conforto é bastante comum. A ideia de que precisamos nos arriscar para crescer tem seu valor, especialmente quando o receio de falhar nos impede até mesmo de tentar. Mas existe uma questão que nem sempre é considerada nesse conselho: se já temos medo de fazer alguma coisa, como nos colocar em uma situação ainda mais desconfortável vai, necessariamente, nos ajudar a conseguir fazê-la? Parece coisa de louco, não é?

Imagine alguém que tem medo de falar em público. Dizer a essa pessoa que ela precisa sair da zona de conforto e fazer uma apresentação diante de uma plateia enorme pode não ser a maneira mais adequada de ajudá-la a superar esse medo. Talvez seja melhor que ela comece falando sobre um assunto do qual se sente segura para algumas pessoas, então progredir para uma pequena apresentação e, somente aos poucos, ir aumentando o desafio.

A intenção não é permanecer eternamente em situações confortáveis, mas entender que nem todo avanço precisa acontecer de uma vez só. É como colocar o pé na água antes de entrar: primeiro sentimos a temperatura, avaliamos como nos sentimos e, então, decidimos se estamos prontos para entrar.

É claro que nem toda situação permite esse tipo de preparação. Algumas decisões exigem uma atitude mesmo quando ainda existe insegurança, e nem sempre conseguimos controlar o ritmo das mudanças. Ainda assim, sempre que possível, dividir um desafio em etapas pode torná-lo mais viável.

Sair da zona de conforto não precisa significar ignorar nossos limites, agir por impulso ou nos jogar em uma situação para a qual não estamos preparados. Podemos reconhecer o medo, nos organizar e dar um passo de cada vez. A coragem não precisa ser a ausência de receio. Às vezes, ela está justamente em encontrar uma maneira possível de seguir em frente apesar dele.

Não precisamos ter certeza de que nunca vamos nos arrepender

Talvez uma das coisas mais difíceis de aceitar seja que não existe escolha capaz de nos oferecer garantias absolutas sobre o futuro. Podemos tomar uma decisão bem pensada e, ainda assim, encontrar dificuldades. Podemos escolher algo que faça sentido hoje e descobrir, daqui a alguns anos, que nossas prioridades mudaram. E podemos até nos arrepender de uma decisão que, dadas as circunstâncias da época, era a melhor que conseguíamos tomar.

Isso não significa que devemos escolher de qualquer maneira. Significa que precisamos aprender a diferenciar uma decisão consciente de uma tentativa impossível de controlar tudo o que acontecerá depois dela.

Em vez de perguntar apenas se podemos nos arrepender, talvez seja mais útil pensar: essa escolha faz sentido diante do que sei, das condições que tenho e daquilo que considero importante neste momento? Não é uma fórmula que elimina o medo, mas nos ajuda a decidir com os pés no chão, sem exigir de nós mesmos uma certeza que ninguém pode oferecer.

E, se no futuro percebermos que precisamos mudar de direção, também poderemos avaliar o que fazer a partir dali. Afinal, não precisamos passar o resto da vida defendendo uma escolha apenas porque um dia a fizemos. Podemos aprender, rever nossos planos e mudar de ideia quando houver motivos para isso.

O que não podemos é voltar ao passado para experimentar todas as possibilidades que deixamos para trás. Tampouco podemos viver o futuro antes que ele chegue. Entre o arrependimento pelo que já aconteceu e o medo do que ainda pode acontecer, existe o presente. É nele que podemos aprender com nossas experiências, avaliar os riscos e dar os passos que estão ao nosso alcance.

Talvez não consigamos viver sem nunca nos arrependermos de nada. Mas podemos evitar que o medo desse arrependimento decida por nós, seja nos mantendo presos ao que passou, seja nos impedindo de experimentar aquilo que ainda pode fazer parte da nossa vida.

Participe da conversa com seu comentário!

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Saiba como seus dados em comentários são processados.

Descubra mais sobre UM ASSUNTO PUXA O OUTRO

Assine agora mesmo para continuar lendo e ter acesso ao arquivo completo.

Continuar lendo