O medo do desconhecido tem te impedido de viver?

Partindo da ideia abordada anteriormente — de que, de forma superficial e exagerada, nada vale a pena —, parece existir também um certo medo, talvez até um pânico, se instaurando entre nós. É como se o receio de sofrer, se decepcionar ou fracassar estivesse fazendo com que deixássemos de conhecer novas pessoas, de nos relacionar, de trocar ideias e experiências e, principalmente, de viver experiências novas.

Talvez precisemos nos arriscar um pouco mais. Mas calma lá: não estou dizendo que devemos viver loucamente ou conduzir a vida como um carro desgovernado. Cautela é importante. Pensar antes de agir, avaliar as consequências e reconhecer os próprios limites também faz parte de uma vida equilibrada. O problema começa quando esse cuidado deixa de ser apenas a prudência — que, é claro, muito necessária para não nos colocarmos em problemas — e passa a ser paralisia.

Eu entendo que as pessoas parem para pensar antes de fazer algo novo e tentem se proteger. No entanto, também é preciso tomar cuidado para não ser engolido pelo medo de que, lá na frente, as coisas deem errado. “Não namore, porque você pode ser traído”; “não se case, pois pode acabar em divórcio”; “não perca tempo com amigos, porque as pessoas decepcionam”; “não tente empreender, porque a maioria dos negócios quebra”.

Esses pensamentos até parecem lógicos quando vistos isoladamente, porque todos apontam para riscos reais. Mas, quando levados ao extremo, podem nos convencer de que evitar qualquer possibilidade de sofrimento é a melhor forma de viver. E não é. Ao construir uma vida inteira baseada em fugir de situações ruins, também corremos o risco de fugir das possibilidades boas.

Não se trata, portanto, de agir sem pensar ou de se tornar irresponsável. Trata-se apenas de compreender que assumir riscos também faz parte da vida. Você pode namorar e terminar, mas também pode encontrar o amor da sua vida. Pode conhecer pessoas e se decepcionar, mas pode construir amizades que durem para sempre. Pode abrir um negócio e ele não dar certo, ou entrar em uma carreira que não corresponda às suas expectativas; mas também pode descobrir um caminho que transforme a sua vida.

Nada disso é garantido. E talvez seja justamente essa falta de garantia que assuste tanto. Ainda assim, não é permanecendo no mesmo lugar, sem tomar iniciativa ou assumir qualquer risco, que as coisas acontecem. Muitas oportunidades só aparecem depois que damos o primeiro passo, mesmo sem saber exatamente no que aquilo vai dar.

Além disso, as coisas que dão errado em nossa vida também nos trazem experiência, diferente da ideia comum de que o fracasso é necessariamente tempo perdido. Muitas vezes, ele é apenas o preço do aprendizado. Cada tentativa frustrada pode ensinar algo: sobre nós mesmos, sobre nossos limites, sobre as pessoas, sobre escolhas e sobre o que faríamos diferente da próxima vez.

Quem decide não tentar nada para se proteger de alguma dor também deixa de desenvolver uma espécie de “casca” que só se cria vivendo. Não uma casca que nos torna frios ou insensíveis, mas uma maturidade que nos ajuda a lidar melhor com as frustrações inevitáveis. Afinal, não existe vida completamente segura, assim como não existe escolha completamente livre de riscos.

Há certos tipos de conhecimento que só adquirimos na prática. Podemos, por exemplo, ler inúmeros livros sobre comunicação em um relacionamento, mas ter uma conversa difícil com alguém importante para nós é outra história. É nesse momento que aprendemos a ouvir de verdade, a pedir desculpas, a negociar, a expressar o que sentimos e a estabelecer limites. E isso vale para diversas áreas da vida.

É em meio aos altos e baixos que a vida vai acontecendo. Por isso, é preciso tomar cuidado para não passar a vida inteira tentando não errar para, no fim, perceber que cometemos justamente o maior erro de todos: o de deixar de viver.

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