Você escolheu isso ou foi escolhido para você?

Quanto do que você considera que são as coisas que você faz e que gosta hoje é resultado das suas experiências e dos seus interesses e quanto disso foi moldado, dia após dia, pelo algoritmo?

É claro que, até onde acredito, a nossa personalidade não nasce pronta. Acredito que ela vai sendo construída de acordo com as nossas vivências, com as coisas que experimentamos e, sim, também pelas pessoas com quem convivemos. Somos influenciados pela nossa família, pelos amigos, pelos lugares onde crescemos, pelas experiências que tivemos… Tudo isso vai, aos poucos, formando quem somos.

Porém, hoje existe mais um participante no nosso ciclo de influências: o feed, que conversa com você durante horas, todos os dias.

E talvez o mais interessante seja que essa conversa não acontece exatamente como uma conversa comum. Você não senta diante do algoritmo para discutir alguma coisa. Ele simplesmente vai mostrando uma coisa aqui, outra ali, uma opinião, uma tendência, uma pessoa, um produto, um estilo de vida. Quando você percebe, aquilo que apareceu algumas vezes começa a parecer familiar. E aquilo que parece familiar, muitas vezes, começa a parecer normal.

A gente gosta de acreditar que escolhe tudo sozinho, mas… será? Você realmente decidiu gostar de um determinado estilo de música, de se vestir, de decoração ou começou a gostar depois de ver e ouvir aquilo por toda parte? Realmente decidiu por uma determinada profissão ou escolheu apenas porque ela é tida como um símbolo de sucesso? Você realmente passou a odiar algo porque aquilo de fato te incomoda… ou simplesmente viu muitas pessoas odiando?

Entende? O algoritmo não precisa te convencer a respeito de alguma coisa num primeiro momento. Ele só precisa repetir a mensagem centenas de vezes para começar a criar uma impressão de que aquilo é normal, desejável ou até inevitável.

E repetição tem muito efeito sobre a nossa percepção. Uma coisa que parecia estranha pode deixar de parecer tão estranha. Uma opinião que parecia exagerada pode começar a parecer razoável. Um comportamento que antes nem passava pela nossa cabeça pode começar a parecer comum porque estamos vendo aquilo todos os dias.

E isso não significa que toda preferência nossa seja falsa só porque apareceu na internet. Não é disso que estou falando. Afinal, também descobrimos coisas por meio das redes sociais. Podemos conhecer um livro, uma música, um jogo, uma profissão, um lugar ou uma ideia que realmente faça sentido para nós. O problema começa quando deixamos de perceber a diferença entre descobrir alguma coisa e ser conduzido até ela.

Afinal, quantas vezes você entrou em uma rede social sem procurar absolutamente nada e saiu de lá querendo alguma coisa que nem sabia que queria? É aí que a coisa fica interessante. A gente não está apenas consumindo conteúdo. Estamos também sendo expostos, repetidamente, a determinados padrões de comportamento, aparência, consumo e sucesso. E, como somos humanos, tendemos a comparar a nossa vida com aquilo que vemos.

Aí surgem os casos de pessoas se comparando umas com as outras e se sentindo mal com isso. Acontece uma normalização de coisas que são nocivas. Formam-se bolhas onde certas falas são repetidas vezes o suficiente para soarem como verdades absolutas. Pessoas acabam se tornando isca para gente que quer vender uma promessa falsa de que você pode “mudar de vida” rapidamente e ganhar dinheiro em cima disso.

E talvez exista algo ainda mais sutil: a sensação de que estamos ficando para trás. De repente, parece que todo mundo está vivendo melhor, produzindo mais, ganhando mais, viajando mais, aproveitando mais. Só que estamos comparando a nossa vida inteira com pequenos recortes da vida de centenas de pessoas. E o algoritmo sabe exatamente quais desses recortes fazem você parar para olhar.

Quanto mais tempo você passa olhando determinado tipo de conteúdo, mais conteúdo parecido aparece. E quanto mais aparece, mais natural aquilo parece. É um ciclo que pode ser bastante difícil de perceber justamente porque acontece aos poucos.

Talvez por isso seja importante, de vez em quando, fazer uma espécie de inventário das nossas próprias escolhas. Eu gosto mesmo disso ou passei a gostar porque estou vendo o tempo todo? Eu quero isso ou comecei a querer porque todo mundo parece ter? Eu realmente penso dessa maneira ou apenas estou repetindo uma frase que ouvi tantas vezes que ela acabou parecendo minha? Eu escolhi esse caminho porque ele combina comigo ou porque aprendi que esse é o caminho que uma pessoa “bem-sucedida” deveria seguir? E, principalmente: se ninguém estivesse vendo, eu ainda escolheria isso?

Não acho que exista uma vida sem influência. Creio que isso nunca tenha existido. Somos influenciados pelo mundo ao nosso redor desde que começamos a entender o que acontece nele. Nossas escolhas nunca foram completamente isoladas. Só acho perigoso quando a gente não procura se dar conta de quem está influenciando a forma como pensamos. Porque talvez o problema não seja ser influenciado. Talvez seja não perceber que estamos sendo.

No fim das contas, talvez uma das coisas mais importantes que podemos fazer seja recuperar, de tempos em tempos, um pouco de silêncio. Sair da sequência infinita de opiniões, tendências, recomendações e comparações e descobrir o que continua fazendo sentido quando ninguém está tentando nos mostrar o que deveríamos querer. Se por acaso você ficasse algum tempo sem as redes sociais… quais sonhos, quais preferências, quais hábitos continuariam sendo seus?

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