Por que as coisas ruins parecem encontrar sozinhas o caminho até a nossa cabeça?
Você chega ao fim do dia. Algumas coisas deram certo e outras não. Você conversou com alguém de quem gosta, resolveu algo que estava pendente, riu de alguma bobagem… Mas, quando finalmente coloca a cabeça no travesseiro, o pensamento volta justamente para aquela coisa que não saiu como você queria.
Você já percebeu o quanto a nossa mente parece gostar de colocar uma lupa nas coisas ruins e banalizar completamente as coisas boas? Podem acontecer coisas boas e ruins no mesmo dia. Talvez a coisa boa tenha sido até maior, mais significativa. Mas o cérebro parece capaz de fazer uma retrospectiva justamente daquele pequeno episódio que deu errado e deixá-lo ocupar espaço suficiente para condenar o dia inteiro. Chega a ser curioso como algumas lembranças parecem não precisar de convite.
Mas não quero seguir pelo óbvio e simplesmente dizer que “temos tendência a focar no negativo”. Estamos falando de algo interno e cotidiano, por isso acho mais interessante olhar para essa experiência de uma forma mais humana, em vez de resumir tudo a: “É, nosso cérebro faz isso. Lide com isso.”
Existe algo interessante quando observamos nossas próprias lembranças. Não é que, necessariamente, não tenhamos lembranças boas. É que elas parecem não se apresentar para nós da mesma maneira.
Uma lembrança desagradável pode simplesmente aparecer do absoluto nada: “Meu Deus, lembra daquele dia em que eu falei aquilo e passei vergonha?”. E pronto. Você nem pediu por isso. Já as boas, às vezes, parecem exigir uma busca: “Deixa eu pensar… Qual foi uma coisa legal que aconteceu ultimamente?”. E aí você começa a procurar.
Mas, afinal, será que damos mais importância ao que é ruim ou será que simplesmente damos mais atenção ao que é ruim? Pode até não parecer, mas são coisas diferentes. Talvez o problema não seja que as coisas boas sejam menores. Talvez seja que as coisas ruins façam mais barulho.
Quantas coisas boas aconteceram hoje e você simplesmente não registrou porque estava ocupado demais pensando naquela única coisa que não saiu como queria? E não estou querendo concluir que devemos ignorar o que é ruim. Pelo contrário: uma coisa deu errado? Bom, faz parte. Tudo bem olhar para ela. Talvez seja necessário entender, resolver e aprender com aquilo.
Mas a questão é: por que uma coisa ruim precisa ganhar o direito de representar o dia inteiro? Por que ela parece conseguir ocupar tanto espaço na nossa cabeça?
Talvez a sensação de que as coisas ruins ocupam mais espaço seja mais do que apenas uma impressão. Na psicologia, existe um fenômeno chamado viés de negatividade, que mostra como tendemos a dar mais importância a eventos negativos do que a eventos positivos, mesmo quando ambos têm intensidade semelhante.
Da mesma forma, a psicologia também explica aquelas lembranças chatas que surgem do absoluto nada. Elas são chamadas de memórias autobiográficas involuntárias. Nos estudos sobre o assunto, surge algo que pode, inclusive, ir contra a nossa intuição: uma revisão publicada em 2025, que reuniu 79 estudos sobre o assunto, mostra que essas lembranças são comuns no cotidiano e que, no geral, tem conteúdo positivo.
Talvez a nossa cabeça não esteja tentando esconder as coisas boas de nós, mas talvez simplesmente tenhamos dado mais atenção para aquilo que nos incomoda. Talvez não tenhamos que lutar contra os pensamentos ruins, nem fingir que eles não existem. Mas será que não podemos aprender a dar às coisas boas o mesmo espaço?
Se o negativo já tem facilidade para chamar nossa atenção, perceber o que foi bom pode exigir um pouco mais de intenção. Não como uma obrigação de terminar todos os dias agradecendo por vinte coisas. Não como uma tentativa de transformar um dia ruim em um dia maravilhoso à força. E muito menos como aquela ideia de que basta pensar positivo e tudo ficará bem.
Talvez seja algo bem mais simples. Às vezes, vale a pena parar no fim do dia e perguntar: “o que deu certo hoje?”. Pode ter sido algo enorme. Pode ter sido uma conversa, uma risada, uma tarefa que finalmente saiu da lista, um café tomado com calma. Ou simplesmente aquele momento em que, por alguns minutos, você percebeu que estava bem.
Não para apagar aquilo que deu errado. Só para não permitir que uma única coisa que deu errado conte a história inteira. Porque talvez as coisas boas não sejam mais silenciosas. Talvez nós apenas precisemos, de vez em quando, fazer um pouco menos de barulho para conseguir ouvi-las.

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