Os momentos difíceis também passam.

Não é como se todos já não soubéssemos disso, não é mesmo? É até uma frase bonita, mas a minha ideia aqui não é cair no genérico, com cara de texto de autoajuda ou motivação, como “tudo passa, tenha fé, dias melhores virão”. Acho que precisamos ter uma conversa mais humana sobre esse assunto.

Porque uma coisa é saber que os momentos bons passam e que os momentos ruins também passam. Outra, bem diferente, é conseguir sentir isso quando estamos justamente atravessando uma fase difícil. Quando estamos no meio de um problema, é comum termos dificuldade de enxergar além dele. O presente desagradável ganha tanto espaço que chega a parecer um estado permanente.

  • Um problema que surge no trabalho parece que vai continuar para sempre.
  • Uma preocupação que aparece em algum momento parece que nunca mais vai embora.
  • Uma fase ruim parece ganhar o poder de definir uma vida inteira.

E, talvez, seja justamente aí que exista uma das coisas mais difíceis de compreender sobre os momentos ruins: enquanto estamos dentro deles, nossa percepção sobre o tempo muda. Quando olhamos para trás, conseguimos enxergar a duração das coisas com muito mais clareza. Sabemos que aquilo começou, aconteceu e, em algum momento, terminou. Conseguimos colocar uma distância entre nós e o problema. Às vezes, conseguimos até entender que ele não era tão grande quanto parecia.

Mas, enquanto estamos vivendo aquilo, não temos essa distância. Estamos simplesmente lá: sentindo o problema, pensando nele, tentando resolvê-lo, contando os dias, esperando alguma coisa mudar. E, dependendo do que estamos enfrentando, pode ser difícil até imaginar como será a nossa vida quando aquilo deixar de fazer parte dela.

O curioso é que, olhando para trás, percebemos quantas coisas que um dia pareciam problemas enormes hoje são apenas lembranças. Algumas perderam completamente a importância. Outras se transformaram em aprendizado. E existem aquelas que, depois de algum tempo, acabam até rendendo uma história engraçada.

Lembro-me, por exemplo, de uma situação durante uma reforma em casa. Houve um período que parecia infernal por causa de um problema com a pressão da água. A pressão era tão fraca que o chuveiro sequer ligava, e foram alguns dias horríveis de banhos frios. Na época, aquilo não tinha absolutamente graça nenhuma. Era só mais uma coisa para resolver em meio a toda a bagunça, ao estresse e aos problemas de uma reforma. E, sinceramente, naquele momento não havia nenhum pensamento reconfortante de “um dia vou olhar para isso e rir”. Hoje, no entanto, conto a história rindo e digo que, naquela época, não pude nem sequer chorar no banho.

Enfim, aquele período que parecia tão difícil e estressante hoje é apenas uma história. Uma daquelas pequenas histórias da vida que, de vez em quando, reaparecem numa conversa e acabam provocando uma risada. O problema é que, enquanto estamos vivendo uma situação assim, não conseguimos enxergá-la dessa maneira. E talvez isso explique por que aquele conselho tão conhecido — “vai ficar tudo bem” — nem sempre ajuda tanto quanto imaginamos. Não porque seja necessariamente mentira, mas porque, em determinados momentos, a pessoa simplesmente não consegue enxergar o caminho até esse “tudo bem”.

Nosso cérebro tende a mergulhar no problema que está acontecendo no presente. E, quando estamos mergulhados nele, perdemos justamente aquela distância que nos permitiria perceber que, aquele momento pelo qual estamos passando, também terá uma duração. Depois que passa, conseguimos olhar para trás e pensar: “Nossa, parece que foi há tanto tempo”. Enquanto estamos vivendo, entretanto, um dia pode parecer enorme, uma semana pode parecer que não tem fim e uma preocupação pode ocupar tanto espaço na cabeça que parece não existir nada além dela.

Não conseguimos medir com a mesma precisão a distância entre o quando começa um momento ruim e quando ele termina. E não é difícil entender o motivo. Com tudo aquilo que sentimos durante um período ruim — a ansiedade, o medo, a frustração, a insegurança, a sensação de fragilidade e, às vezes, até algo mais físico, como uma dor mesmo — não sobra muito espaço, e talvez nem disposição, para ficar imaginando como estaremos depois.

Não é que tenhamos esquecido que as coisas passam. Talvez, naquele momento, simplesmente não consigamos enxergar o depois. E acho que existe uma diferença importante aí.

Talvez não seja necessário acreditar, com toda a certeza do mundo, que “vai ficar tudo bem”. Há momentos em que essa frase simplesmente parece boba demais para poder ser verdadeira. Talvez seja o suficiente lembrar que a maneira como estamos nos sentindo agora não é necessariamente a maneira como vamos nos sentir para sempre. O que parece definitivo hoje pode ser apenas mais um capítulo que estamos vivendo em nossas vidas.

Isso não significa diminuir aquilo que estamos passando. Algumas coisas realmente doem. Algumas fases realmente são difíceis. Alguns problemas não desaparecem rapidamente e, em determinados casos, deixam marcas que continuam com a gente para sempre.

Dizer que os momentos difíceis passam não significa dizer que tudo se resolve magicamente ou que toda experiência ruim precisa terminar com uma grande lição. Às vezes, ela simplesmente termina. E isso já é alguma coisa.

O problema é resolvido, a situação muda, a pessoa vai embora, a fase termina, a preocupação encontra uma resposta, a rotina se reorganiza. E, pouco a pouco, aquilo que parecia ocupar a vida inteira volta a ocupar apenas uma parte da nossa história.

Talvez seja por isso que, quando estamos atravessando um período ruim, não precisemos nos obrigar a enxergar um futuro maravilhoso. Talvez baste não confundir o presente com o futuro.

O fato de você não conseguir enxergar a saída enquanto está dentro de uma situação não significa que ela não exista. O fato de hoje parecer interminável não significa que será. E o fato de uma fase estar ocupando tanto espaço na sua vida agora não significa que ela terá esse mesmo tamanho daqui a algum tempo.

Não, eu não sei se “vai ficar tudo bem”. Mas acredito que você já viveu coisas que um dia pareceram não ter fim — e elas terminaram. Algumas viraram lembranças. Outras viraram histórias. Algumas talvez ainda doam um pouco. Mas nenhuma delas conseguiu permanecer exatamente como era para sempre.

Então, talvez, quando não conseguirmos enxergar o depois, não precisemos enxergá-lo. Talvez seja suficiente lembrar que existe um depois. E que, algum dia, aquilo que hoje parece ser a sua vida inteira pode ser apenas mais uma história que você vai contar.

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