Comunicação também é saber ouvir.
Esta semana temos falado muito sobre comunicação por aqui. Falamos sobre se expressar com clareza, ser transparente e saber interpretar, mas ainda não falamos de algo também muito importante quando nos comunicamos com as pessoas: saber ouvir. Talvez seja justamente por não ouvirmos direito que haja tantos problemas de interpretação.
Quando falamos em comunicação, costuma-se falar muito sobre a escolha das palavras e sobre como se expressar adequadamente. Falamos aqui sobre deixar claro o que pensamos e sobre a importância de dizer o que sentimos. Ao longo da vida, aprendemos que uma boa comunicação pode evitar mal-entendidos, aproximar pessoas e até resolver conflitos. Mas existe uma parte da comunicação que não depende de falar, e sim de ouvir. Parece algo bem simples, não é? Afinal, basta ficar em silêncio enquanto a outra pessoa fala, certo? Bom, nem sempre.
Às vezes, até estamos em silêncio enquanto o outro fala, mas não estamos ouvindo de verdade; estamos apenas esperando a nossa vez de falar. Enquanto a outra pessoa conta algo, já pensamos no que vamos responder. Lembramos de uma história parecida que aconteceu conosco, pensamos em um conselho que poderíamos dar, tentamos encontrar uma solução para o problema. E, quando percebemos, a conversa que deveria ser sobre o outro já virou uma conversa sobre nós.
— Hoje foi um dia horrível.
— Nem me fala! O meu também foi péssimo…
É comum, não é? Mas, claro, não há nada de errado em compartilhar uma experiência parecida, pois as conversas também são feitas dessas trocas. O problema é quando fazemos isso antes mesmo de dar espaço para que a pessoa termine o que estava tentando dizer. Talvez ela só quisesse contar como foi o dia. Talvez não estivesse procurando uma solução, só precisasse ser ouvida.
Parece que existe uma tendência de achar que, quando alguém nos conta algo — principalmente se for um problema —, precisamos fazer alguma coisa imediatamente a respeito. Mas nem sempre é disso que a pessoa precisa. Às vezes, ela só precisa de alguém que esteja ali. Isso não significa concordar com tudo o que ouvimos, muito menos abandonar nossas próprias opiniões para validar as do outro.
Podemos discordar e, ainda assim, ouvir. Podemos não ter uma solução para apresentar e, ainda assim, estar presentes. Podemos até não entender completamente o que a outra pessoa está sentindo, mas podemos, ao menos, tentar compreender antes de responder. Talvez uma das perguntas mais úteis em uma conversa seja justamente uma bem simples: “Você quer uma opinião ou só quer conversar?” Pode parecer pouca coisa, mas isso pode mudar completamente o rumo de uma conversa.
Quando pensamos em comunicação, geralmente pensamos nas palavras, mas existem formas de demonstrar atenção sem falar: olhar para a pessoa enquanto ela fala, não interromper a todo momento e demonstrar interesse. São pequenas atitudes que dizem: eu estou aqui e estou prestando atenção em você. Talvez seja justamente isso que esteja ficando mais raro hoje em dia.
Estamos constantemente cercados por estímulos: notificações, mensagens, vídeos, notícias, redes sociais… É possível conversar com alguém enquanto parte da nossa atenção está em outra coisa. Estamos presentes, mas nem sempre estamos realmente ali.
Talvez exista ainda outra diferença importante: ouvir porque estamos realmente interessados naquela pessoa não é o mesmo que ouvir apenas para saber o que contar depois. Uma conversa pode ser uma troca de experiências, histórias e confidências. Naturalmente, as pessoas comentam entre si o que acontece em suas vidas. Mas existe uma grande diferença entre compartilhar uma história e sair espalhando algo que alguém contou em confiança.
Se uma pessoa escolheu contar algo em particular para você, o fato de ela ter confiado em você também faz parte da história. O que fazemos com aquilo que ouvimos diz algo sobre a maneira como escutamos, mas este já é assunto para outra conversa.
Há também uma diferença importante entre ouvir e concordar. Podemos ouvir uma opinião diferente da nossa sem transformar a conversa em uma disputa. Podemos simplesmente perguntar: “Por que você pensa assim?” e tentar entender de onde aquela pessoa parte. E, mesmo depois de ouvir, continuar pensando diferente. Isso também é comunicação. Aliás, talvez seja uma das partes mais difíceis dela.
Porque ouvir de verdade significa aceitar que, durante alguns minutos, o centro da conversa não somos nós. É o outro. E isso não diminui aquilo que pensamos ou sentimos; apenas cria espaço para que outra pessoa também exista naquela conversa.
É claro que nem sempre vamos conseguir fazer isso o tempo inteiro. Há dias em que estamos cansados demais para prestar atenção. Há conversas em que nos distraímos e, às vezes, interrompemos sem perceber. Faz parte. Mas talvez possamos prestar um pouco mais de atenção na próxima conversa: deixar a pessoa terminar antes de responder, perguntar se ela quer um conselho antes de oferecê-lo e perceber, antes de contar uma história nossa, se o assunto realmente pede isso. E, principalmente, lembrar que nem toda conversa precisa chegar a uma solução. Algumas conversas só precisam continuar.
Comunicação não é apenas conseguir dizer aquilo que queremos. Também é criar espaço para que o outro diga aquilo de que precisa. E, às vezes, a melhor coisa que podemos oferecer em uma conversa não é uma resposta, mas simplesmente estarmos ali, presentes para ouvir.

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