Não coloque uma pessoa nova em uma história que ela não escreveu.

Vou começar com uma situação bem comum: uma pessoa, no passado, foi traída em um relacionamento anterior. Tempos depois, inicia um novo relacionamento. O novo parceiro não deu nenhum motivo concreto para desconfiança, mas ainda assim precisa lidar com perguntas, cobranças, vigilância, interpretações e desconfianças.

Essa pessoa aprendeu, no relacionamento anterior, que poderia ser traída e que precisava se precaver. Logo, passou a adotar aquele famoso lema: “confiança se conquista”, para justificar atitudes que transferem a culpa de alguém que a machucou no passado para alguém que está ao seu lado no presente. Mas, afinal, até que ponto o passado explica o nosso comportamento — e a partir de quando ele começa a justificar aquilo que fazemos com alguém que não tem culpa?

Olhando de fora, essa situação não parece muito justa, não é? Ainda assim, muitas pessoas agem dessa forma, não apenas em relacionamentos românticos, mas em diversos aspectos da vida. Às vezes, deixam de ser gentis porque alguém foi grosseiro no passado; deixam de ser amigos presentes porque um amigo errou com elas; deixam de se comprometer no trabalho porque um chefe não deu o devido reconhecimento.

Não estou aqui para dizer que aprender com as experiências e tomar precauções para não se machucar novamente é algo ruim. É perfeitamente compreensível que uma traição, por exemplo, deixe marcas. O que não é justo é fazer uma pessoa que chegou depois viver como se fosse responsável por impedir que aquilo aconteça novamente.

A pessoa que foi machucada tem direito à insegurança, mas o parceiro também tem o direito de não ser tratado como culpado antes de fazer qualquer coisa. Uma ferida pode explicar uma reação sem, ao mesmo tempo, torná-la justa.

É compreensível que quem foi abandonado interprete a distância como abandono; que quem foi enganado procure mentiras onde não existem; que quem viveu em um relacionamento controlador passe a controlar; que quem foi constantemente desvalorizado enxergue rejeição em qualquer crítica; que quem teve promessas quebradas cobre garantias que o outro nunca teve obrigação de oferecer. No entanto, isso não é justo — da mesma forma que também não foi justo com quem passou por isso no passado.

Será que estamos conhecendo a pessoa que está diante de nós ou tentando nos proteger de alguém que já foi embora? É preciso encontrar um equilíbrio entre compreender o que aconteceu no passado e ser justo com aqueles que orbitam nossas vidas hoje, para que elas não precisem arcar, por tabela, com as consequências dos erros de outras pessoas.

É como se, mesmo que a pessoa que nos machucou já tenha ido embora, às vezes deixássemos que ela continuasse participando dos nossos relacionamentos seguintes. Só que, dessa vez, ela aparece através das nossas próprias atitudes.

E não, não estou dizendo: “confie em todo mundo”, “não tenha ciúmes”, “não tenha um pé atrás” ou “coloque a mão no fogo por alguém”. Definitivamente, não. Embora a ingenuidade seja uma característica de pessoas boas — e não necessariamente um defeito, como muitos dizem —, o amadurecimento e a experiência mostram que precisamos ser cuidadosos.

Se alguém realmente engana, esconde coisas, manipula ou dá motivos concretos para desconfiança, não é o passado falando. É o presente apresentando fatos.

É uma questão de equilíbrio. Não é preciso esperar que alguém nos machuque para reconhecer que precisamos nos proteger. Mas também não é justo exigir que alguém prove constantemente que não é capaz de fazer aquilo que nos machuca.

Para finalizar: não coloque alguém novo em uma história antiga. Talvez amadurecer emocionalmente seja aprender que memória e evidência são coisas diferentes. O passado pode nos ensinar a prestar mais atenção, a ser mais cuidadosos e conscientes sobre os nossos limites. Mas ele não deveria escrever antecipadamente o roteiro do nosso presente e futuro.

E, para acrescentar: a proposta desta reflexão não é colocar ninguém como vilão. A pessoa machucada merece compreensão, mas as pessoas ao seu lado também merecem ser vistas como indivíduos, e não apenas como possíveis repetidores do passado.

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