Quando ser escolhido importa mais do que escolher.

A carência é inimiga das boas relações, principalmente das amorosas. E, bem, não quero seguir aquela abordagem simplista que acredita que carente é quem não se ama, porque não creio que seja bem assim. Mas é verdade que a carência, às vezes, pode gerar uma necessidade tão grande de ter alguém, que ela passa a interferir na nossa capacidade de enxergar não só quem está diante de nós, mas até quem nós mesmos somos.

É muito comum que, quando a pessoa está carente, a pergunta deixe de ser: “essa pessoa combina comigo?” e passa a ser: “essa pessoa quer ficar comigo?”. Perceba que são duas perguntas completamente diferentes. Para alguém muito carente, o simples fato de outra pessoa demonstrar interesse pode fazer parecer que ela é especial. Quando estamos carentes, podemos dar mais valor a ser escolhidos do que a escolher. Na minha opinião, isso é particularmente perigoso, porque relacionamentos não são prêmios por alguém ter nos escolhido. Nós também precisamos avaliar se queremos aquela pessoa em nossa vida.

Além disso, a carência também tende a transformar migalhas em um prato cheio. Um pouco de atenção pode parecer muito quando estamos famintos por atenção. Uma mensagem, um elogio, uma demonstração esporádica de carinho ou uma promessa de futuro podem adquirir um peso enorme. Então, começamos a interpretar pequenos gestos como provas de coisas muito maiores do que realmente são. E não é que, necessariamente, a outra pessoa esteja sendo manipuladora — às vezes, ela simplesmente não está oferecendo aquilo que parece. Ainda assim, a carência pode aumentar o tamanho daquilo que recebemos.

Há outro ponto muito perigoso na carência: ela pode nos cegar diante das red flags — sinais de que algo não está certo. Não é que a pessoa necessariamente deixe de vê-los; às vezes, ela os vê, mas imediatamente procura uma explicação para o que percebe. “Ele fez isso porque está passando por um momento difícil”; “Ela é assim porque sofreu muito no passado”; “Comigo vai ser diferente”; “Ele vai mudar”. Mas existe uma enorme diferença entre compreender os motivos de alguém e aceitar ser maltratado por causa deles. A verdade é que a carência nos torna excelentes “advogados do diabo”.

Também há a questão da projeção: a pessoa se apaixona pela possibilidade que imagina para alguém, e não por quem essa pessoa realmente é. Quando estamos carentes, tendemos a preencher os espaços vazios com aquilo que gostaríamos que estivesse ali. Se a pessoa é reservada, talvez seja profunda. Se é indecisa, talvez esteja apenas com medo. Se não demonstra muito, talvez só não saiba demonstrar. Se não tem planos parecidos com os nossos, talvez ainda mude de ideia. Assim, aos poucos, construímos uma pessoa que não existe — pelo menos não daquela maneira — e nos apaixonamos não por alguém, mas por uma versão criada pela nossa imaginação. Quando nos damos conta disso, enfrentamos uma dor muito difícil: a de não apenas perder uma pessoa, mas também toda a história que imaginávamos com ela.

A carência ainda pode nos apressar e transformar o relacionamento em uma espécie de corrida contra o tempo. Queremos logo saber se vai dar certo, apresentar a pessoa a todo mundo, fazer planos e pressionar o outro, porque buscamos uma segurança que, na verdade, só surge naturalmente com o tempo. A pessoa carente tende a pular etapas, como se o tempo fosse apenas mais uma burocracia. Mas não é: ele é justamente o que permite que alguém deixe de ser uma primeira impressão e passe a ser conhecido de verdade.

Outro problema que costuma atingir pessoas com alto nível de carência é a dependência emocional. Ela pode aparecer antes mesmo de existir intimidade suficiente com a outra pessoa que a “justifique”. Alguém pode passar a ocupar um espaço enorme em nossa cabeça em pouquíssimo tempo quando estamos carentes. Ficamos ansiosos esperando mensagens, pensando no que o outro quis dizer, interpretando o silêncio e imaginando o futuro. Antes mesmo de conhecermos aquela pessoa de verdade, ela já ocupa uma parte desproporcional da nossa vida. A relação pode ser pequena na realidade, mas gigante na cabeça de alguém carente.

Por último, a carência tende a transformar uma rejeição em uma sentença sobre o nosso valor. O “não” ganha um peso muito maior. Não se trata apenas de o outro não querer se relacionar conosco; vira uma questão de autoestima: “Tem algo errado comigo”; “Ninguém me quer”; “Vou ficar sozinho para sempre”. E isso costuma criar um ciclo bem complicado: quanto mais a nossa autoestima depende de sermos desejados pelos outros, mais desesperadamente precisamos disso.

Mas, então, como lidar com a carência? Como resolver esse problema? Pode parecer difícil, mas é preciso aprender a ficar sozinho. E não se trata de acreditar que ninguém precisa de ninguém — definitivamente, precisamos de pessoas. Afeto, companhia, intimidade e vínculo são importantes. O problema não é querer alguém; é precisar tanto de alguém que qualquer pessoa pareça melhor do que ninguém.

Ficar sozinho por algum tempo pode nos ajudar a nos descobrir e a entender a diferença entre aquilo que desejamos e aquilo que aceitamos por medo de não encontrar nada melhor. Mas, para não me alongar ainda mais, esse é um assunto para outra conversa. Não há problema em querer companhia; o perigo é transformar sua ausência em uma urgência que nos faça aceitar qualquer presença.

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