Torne-se um bom ímpar antes de querer formar um bom par.

Dando continuidade ao assunto anterior, em que falamos sobre a carência, neste texto — conforme prometido — vou abordar melhor a ideia de aprender a ficar sozinho e como isso pode ser muito positivo para quem sofre com a carência.

Gostaria de pontuar uma coisa: quando externalizamos um problema, conseguimos enxergar melhor sua verdadeira dimensão. Enquanto escrevia o texto anterior, percebi que a problemática parecia se estender cada vez mais. Mesmo já compreendendo o quanto a carência pode atrapalhar nossas vidas, fiquei surpresa ao perceber a verdadeira dimensão desse problema.

Por isso, a conversa de hoje é um contraponto à anterior. Quero propor a perspectiva de que alguém pode deixar de acreditar que precisa de outra pessoa para receber aquilo que não consegue encontrar em si mesma e passar a compreender que é capaz de estar sem alguém ao lado sem que se senta incompleto.

Também gostaria de desconstruir uma ideia muito comum: a de que “aprender a ficar sozinho” significa se tornar uma pessoa independente ao extremo, que não precisa e nem procura ninguém, que se torna avessa à ideia de se relacionar. Isso pra mim não é aprendizado; é trauma.

Uma pessoa pode gostar muito de estar com outras pessoas e, ainda assim, saber ficar sozinha sem se sentir mal com isso. Ela até pode sentir saudade, querer companhia, desejar construir um relacionamento e dividir a vida com alguém. Mas a ausência dessa pessoa não transforma sua vida em um vazio insuportável.

Aprender a ficar sozinho não significa aprender a não precisar de ninguém. Como já disse algumas vezes, o ser humano é um ser social e as pessoas precisam umas das outras. Significa apenas aprender que precisar de companhia ocasionalmente não é o mesmo que depender de alguém para viver bem.

E algo muito importante: aprender a ficar sozinho não significa se isolar nem romantizar a solidão. Isolamento é afastar-se do mundo; solidão é uma experiência emocional. Já a solitude pode ser uma escolha momentânea de estar consigo mesmo. Você pode não estar em um relacionamento amoroso e, ainda assim, conhecer pessoas, manter amizades e trocar ideias. Ficar sozinho não exige se afastar de todos ou desaparecer.

Uma pessoa pode passar uma tarde sozinha, tomar um café, viajar ou fazer uma atividade no tempo livre sem companhia. Depois, pode retornar aos amigos, à família e, inclusive, ao parceiro, se tiver um. E, principalmente, fazer coisas sozinho nos permite descobrir mais sobre aquilo de que gostamos. Se só você verá um filme, escolherá algo que queira assistir, e não o que os outros desejam. Se for a algum lugar sozinho, irá a um lugar que lhe agrade, e não aonde os outros querem ir. É passando tempo conosco que aprendemos, de verdade, quem somos e do que gostamos.

Aprender a ficar sozinho melhora muito os relacionamentos, porque a pessoa deixa de procurar no outro uma espécie de salvação para o próprio desconforto. Ela passa a estar com alguém porque quer compartilhar, e não necessariamente porque precisa preencher um espaço. Algo que eu costumava dizer quando falava desse assunto — pois, em algum momento da vida, escolhi ficar sozinha e vivi essa experiência — é: “Você precisa se tornar um bom ímpar para, um dia, formar um bom par com alguém.”

Quando estamos acostumados a sempre ter alguém por perto, ficar sozinho pode parecer estranho no começo. O silêncio incomoda. Arrumamos qualquer coisa para fazer e nos distrair. Mas, em algum momento, é preciso parar de fugir desse desconforto e tentar entender o que exatamente nos assusta quando estamos sozinhos.

É o silêncio? O tédio? Não ter com quem dividir uma decisão? Não ter alguém para validar o que estamos fazendo? Perceber que não sabemos o que fazer com o próprio tempo? Ou, simplesmente, sentir que, se ninguém estiver nos procurando, talvez não sejamos importantes para ninguém?

É importante conseguir enfrentar esse desconforto, não porque o silêncio seja maravilhoso, mas porque é difícil descobrir como é estar consigo mesmo enquanto estamos sempre tentando fugir disso. Aos poucos, começamos a perceber que conseguimos fazer coisas sozinhos como tomar decisões, resolver problemas e sobreviver a um dia ruim sem que alguém venha imediatamente nos socorrer.

Além de que estar sozinho não significa necessariamente sentir-se sozinho. É possível estar cercado de pessoas e, ainda assim, se sentir completamente só, pois a solidão é uma experiência emocional, já estar sozinho é uma circunstância. Aprender a estar na própria companhia é aprender a não interpretar essa circunstância automaticamente como um problema.

Além de que conseguir e gostar de ficar sozinho não são a mesma coisa. Você pode aprender a ficar só sem considerar aquilo incrível. E tudo bem, porque aprender a ficar sozinho não significa descobrir que não precisamos de ninguém. Significa apenas perceber que a vida continua existindo mesmo quando ninguém está por perto.

Talvez, depois de aprender a ficar sozinho, surja uma pergunta ainda mais interessante: e se eu descobrir que gosto de estar comigo mesmo? Porque uma coisa é desenvolver autonomia diante da ausência, outra coisa bem diferente, é aprender a apreciar a própria companhia. Mas isso já é outro assunto.

Uma resposta para “Aprenda a ficar sozinho: entre a carência e a própria companhia.”

  1. […] outro texto, quando falava sobre a carência, falei sobre a importância de sermos bons ímpares para formar bons pares. E acredito que essa […]

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