Quando tudo parece urgente…

Acredito que você, assim como eu, já passou pela situação de receber uma mensagem em algum aplicativo de mensagens instantâneas e, por estar ocupado ou atarefado naquele momento, não conseguir responder imediatamente. Pouco tempo depois, recebe outra mensagem perguntando se você viu a anterior e questionando a sua demora em responder — às vezes, a pessoa do outro lado até fica brava com a situação. Ou ainda, vamos admitir: será que já não fomos essa pessoa querendo que o outro nos respondesse na hora?

Sim, estou falando do imediatismo. Hoje em dia, parece haver uma expectativa de que tudo aconteça rápido: responder mensagens, tomar decisões, solucionar problemas, aprender alguma coisa, dar uma opinião, alcançar resultados… Parece que, pouco a pouco, o “agora” foi se tornando o único tempo aceitável, e estar sempre disponível se tornou o novo “normal”. Digo isso porque, às vezes, a outra pessoa talvez nem esteja te cobrando de verdade, mas existe aquela sensação de que, se você está com o celular na mão, deveria ter visto, respondido e resolvido tudo na hora.

Lembro que, não faz tanto tempo, tínhamos a opção de ligar a secretária eletrônica, ativar a caixa postal ou simplesmente “tirar o telefone do gancho” se não quiséssemos ser incomodados em determinado horário. Hoje, o contato é feito por mensagens instantâneas que, apesar de receberem esse nome pelo fato de seu envio ser imediato, muitas pessoas tratam como se também precisassem ser respondidas imediatamente.

E toda essa questão do imediatismo vai muito além das mensagens. Se antes era comum sairmos do trabalho e, a partir do momento em que passávamos da portaria, tudo acabava — e qualquer coisa que precisasse ser tratada ficava para o dia seguinte —, hoje se tornou supernormal estar em casa e receber contato do trabalho no número pessoal para resolver coisas fora do expediente.

O imediatismo se estende a muitas outras coisas: queremos saber imediatamente se uma decisão tomada foi a certa; queremos resultados rápidos depois de começar alguma coisa; queremos entender imediatamente o que estamos sentindo; queremos solucionar um problema tão rápido quanto ele aparece; queremos as respostas antes mesmo de termos terminado de formular a pergunta…

Todo esse imediatismo caminha de mãos dadas com a ansiedade que parece generalizada na sociedade atualmente. Mas é preciso compreender que existe uma diferença enorme entre ter pressa porque uma situação exige e viver como se tudo fosse urgente. Porque, sim, às vezes haverá situações em que precisamos agir rápido: emergências e até decisões que precisamos tomar no calor do momento. No entanto, essa é a exceção, não a regra.

A verdade é que o mundo não vai acabar se você deixar uma mensagem para responder depois, quando estiver menos atarefado. Muito pelo contrário: talvez você consiga até responder melhor, dando a devida atenção à pessoa que entrou em contato. E isso se aplica a uma série de coisas na nossa vida. Uma decisão que tenhamos que tomar, por exemplo, pode ser muito mais acertada se dedicarmos o devido tempo para refletir sobre ela. Não estou falando de ficarmos eternamente pensando e nunca agir, apenas de reservar o tempo necessário para pensar sobre algo.

É preciso entender que ninguém é obrigado a acompanhar a velocidade que o mundo decidiu adotar. E, quando eu digo ninguém, é ninguém mesmo, incluindo eu, você e as pessoas de quem cobramos instantaneidade. Não se trata de defender a lentidão em tudo. A questão é que essa cobrança por disponibilidade imediata e incondicional não tende a nada além de nos deixar completamente loucos.

Se em alguns textos por aqui falei sobre o direito ao descanso, como vamos nos dar esse descanso se temos a ideia de que tudo precisa ser resolvido para ontem? Se sequer sentimos que temos direito ao tempo? Com que tempo vamos descansar, fazer as coisas de que gostamos, estar junto daqueles que amamos e cuidar de nós mesmos, se somos cobrados a estar sempre disponíveis para tudo e para todos, a todo momento?

É preciso compreender também que algumas coisas não se apressam. Muitas coisas que, na verdade, são processos vêm sendo tratadas como acontecimentos. Uma mudança de vida, por exemplo, é um processo e, entre as coisas de que precisa para acontecer, está o tempo. Hoje há quem tente superar coisas que sequer viveu, que queira chegar a lugares sem passar pelo caminho que leva até lá, que queira colocar em prática algo que antes precisa ser elaborado. Todas essas coisas levam tempo; não acontecem instantaneamente.

Você pode aprender aos poucos. Pode decidir depois. Pode mudar de ideia. Pode ainda não ter certeza. Pode deixar uma coisa para amanhã. Pode responder depois. O mundo pode até estar correndo, mas você não precisa correr atrás dele o tempo inteiro.

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