Cansaço é cansaço e ponto.

Já falamos por aqui sobre a importância de descansar e também já abordamos o que, de fato, é o cansaço — que não é somente uma coisa física, mas também mental e emocional. Ou seja, não é só o corpo que fica cansado, mas a cabeça também.

Mas e quando começamos a ultrapassar os limites porque, principalmente, o cansaço da mente é muitas vezes invalidado e até normalizado, e começamos então a viver no limite? Porque tem uma coisa interessante aí: quando ultrapassamos o limite pela primeira vez, a gente percebe. Mas, quando fazemos isso dia após dia, podemos começar a redefinir aquilo que consideramos “normal”.

O “eu estou cansado” vira: “é só uma fase”, “essa semana está corrida”, “no final de semana eu descanso”, “todo mundo está cansado, é assim mesmo”… Até que, eventualmente, nem percebemos mais que estamos vivendo constantemente com pouca energia. Não porque seja apenas possível nos acostumarmos com o cansaço, mas porque podemos nos acostumar com uma versão de nós mesmos que está sempre cansada.

Até continuamos sendo capazes de trabalhar, conversar e cuidar das coisas, mas provavelmente com menos paciência, menos curiosidade e menos disposição para fazer o que gostamos. Afinal, quantas coisas deixamos de fazer não porque não queremos, mas porque estamos cansados demais pra fazer? O cansaço não apenas rouba nossa energia; ele também vai estreitando a nossa vida.

E de onde vem essa normalização do cansaço? Bom, além de vir da expectativa de extrema produtividade e performance que temos hoje em dia, ela também vem de uma invalidação que ocorre muitas vezes. Quem nunca ouviu algo como: “Está cansado de quê se você não fez nada hoje?” ou “Mas como você está cansado se nem trabalha com um serviço pesado?”

Existe ainda, mesmo nos dias de hoje, em que já se fala sobre coisas como burnout e depressão, uma ideia de que somente o cansaço resultante do esforço físico — ou seja, o cansaço do corpo — é válido. Sobre os demais tipos de cansaço, nem vou repetir o que já ouvi por aí dizerem que são.

E das mesmas pessoas que se referem ao cansaço como uma coisa meramente física também pode vir algo como: “Cansaço mesmo sente quem bate uma laje”, ou seja, quem trabalha fazendo esforço físico. E logo você percebe que parece existir uma comparação sobre quem está mais cansado, como se o cansaço fosse algum tipo de unidade de medida.

Só que o “eu estou mais cansado do que você” não deveria significar “portanto, você não está cansado”. É quase como se o cansaço fosse uma espécie de ranking: quem trabalhou mais horas, quem fez mais esforço físico, quem teve o dia mais difícil, quem acumulou mais responsabilidades… Esse, sim, teria o “direito” de se sentir cansado; já os demais deveriam agradecer por ainda terem energia.

Duas pessoas podem passar pelo mesmo dia e chegar ao fim dele com níveis completamente diferentes de desgaste, pois tipos diferentes de esforço produzem tipos diferentes de cansaço. Isso não significa que um seja “maior” e o outro “menor”; são apenas experiências diferentes. É preciso compreender isso, em vez de simplesmente continuarmos a hierarquizar o sofrimento.

“Eu trabalho mais do que você”; “eu durmo menos do que você”; “eu tenho mais responsabilidades do que os outros”; “você não sabe o que é estar cansado de verdade”. Já ouviu alguma coisa parecida? Eu imagino que sim.

Mas, afinal, por que diabos precisamos decidir quem está mais cansado? Se duas pessoas chegam ao fim do dia esgotadas, o cansaço de uma não precisa diminuir o da outra. Cansaço é cansaço e ponto.

O cansaço que vai além do físico precisa ser respeitado também, porque, quando ouvimos repetidamente coisas como “isso não é motivo para estar cansado”, começamos a fazer conosco exatamente aquilo que os outros fizeram. Começamos a comparar o nosso cansaço com o de outras pessoas antes de nos permitirmos simplesmente reconhecê-lo.

É preciso compreender que nem todo esforço é necessariamente visível. Alguém que trabalhe numa obra carregando material, um jardineiro trabalhando debaixo do sol, um vendedor que passou o dia inteiro em pé: o corpo mostra o trabalho.

Mas imagine alguém que passou oito horas diante de um computador, alternando entre tarefas, tomando decisões, resolvendo problemas, lidando com prazos, interrupções e cobranças. Para quem olha de fora, essa pessoa pode parecer simplesmente… sentada diante de uma tela. Mas o esforço aconteceu; só não ficou visível aos olhos de quem observa.

E isso fica ainda mais complicado quando entramos no campo emocional. Alguém pode passar o dia administrando uma situação familiar difícil, tentando manter a calma durante um conflito, preocupado com alguém, tentando parecer bem quando não está. No fim do dia, talvez não exista nenhuma evidência externa de que aquela pessoa tenha enfrentado todas essas coisas mas, na verdade, ela passou horas gastando energia para lidar com tudo aquilo que estava acontecendo dentro dela.

O fato de não conseguirmos enxergar o esforço não significa que ele não esteja acontecendo. E, às vezes, nós mesmos não percebemos o esforço porque ele acontece justamente em coisas que parecem “normais”.

Por exemplo, tomar uma decisão pode parecer algo pequeno, mas a pessoa pode passar horas pensando nas consequências e tentando escolher entre duas opções ruins. Ouvir alguém também parece algo passivo, mas ouvir de verdade, acolher, tentar compreender e controlar a própria reação pode exigir bastante energia. Se controlar pode exigir um esforço enorme que ninguém vê, assim como continuar funcionando enquanto alguma coisa nos preocupa.

Nem todo esforço produz suor, dor muscular ou uma pilha de coisas realizadas para provar que ele, de fato, aconteceu. Alguns esforços simplesmente levam a nossa energia embora sem que a gente nem perceba.

E não, definitivamente não estou querendo afirmar que o esforço mental ou emocional é necessariamente mais difícil do que o físico. O ponto é justamente o contrário: não existe uma régua simples que permita transformar experiências tão diferentes em uma competição.

Então, talvez, a pergunta não devesse ser “quem está mais cansado?”. Devíamos nos perguntar por que chegamos ao ponto de achar que alguém precisa estar mais ou menos cansado do que nós para que o nosso próprio cansaço mereça ser reconhecido e, só então, tenhamos direito ao descanso.

Antes de aprendermos a respeitar nossos limites, precisamos aprender a parar de usar o limite dos outros como régua para medir o nosso. E o mesmo vale para o contrário.

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