Esperar ser compreendido não é esperar que adivinhem o que você quer dizer.

Uma pessoa, de repente, ao fim de uma conversa — normalmente durante o rompimento de alguma relação — diz algo como: “Vai embora! Eu não quero mais ver você!”. De acordo com o que foi dito, a outra pessoa simplesmente vira as costas e vai embora. Afinal, essa é uma fala direta e que não deixa muita margem para interpretação, não é mesmo? Só que, logo depois, a pessoa, às vezes até brava por a outra ter feito exatamente aquilo que ela pediu, retorna com algo como: “Você foi mesmo?”, “Não era para você ter ido embora.”, “Eu queria que você tivesse vindo atrás de mim e não tivesse me dado as costas…”. Pois bem, alguns podem até dizer que é raro, mas acontece bastante.

Apesar de a conversa ter sido aberta com um exemplo mais específico, a verdade é que comumente vemos pessoas dizendo uma coisa, mas que, por algum motivo, parecem querer que aqueles que ouvem interpretem algo totalmente diferente. Só que o problema é que a outra pessoa não sabe disso! Não parece loucura? Bom, vou para exemplos menos dramáticos e, provavelmente, você vai se reconhecer em, pelo menos, uma dessas situações:

  • Você oferece ajuda para uma pessoa em algo que ela está fazendo, e a resposta é: “Pode deixar, não precisa”. Depois, ela pode até ficar chateada porque você não ajudou;
  • Você pergunta se a pessoa tem preferência por, digamos, algo para comer, e a resposta é: “Tanto faz”. Depois, ela reclama porque queria pizza;
  • Você questiona se aconteceu alguma coisa quando nota que a pessoa parece um pouco diferente, talvez meio abalada, mas a resposta é: “Está tudo bem, não aconteceu nada”. Um tempo depois, ela demonstra estar magoada com você, alegando que você não se importa com ela.

Fora esse tipo de situação em que a pessoa diz “A”, quando, na verdade, queria dizer “B”, ainda existem aquelas pessoas que parecem supor que temos bola de cristal para adivinhar as coisas. Querem que, sem nenhuma comunicação prévia, saibamos como elas estão, o que querem, o que esperam de nós… E, bem, é verdade que, quando conhecemos bem uma pessoa, temos intimidade com ela e uma relação de longa data, é comum conseguirmos compreender algumas coisas sem que elas sejam comunicadas. Entretanto, isso não elimina a necessidade de comunicação, muito menos se as duas pessoas sequer se conhecem direito.

É preciso entender que existe uma diferença bem grande entre esperar ser compreendido e esperar que o outro adivinhe o que você quer. É perfeitamente humano querer que aqueles com quem nos relacionamos percebam que estamos mal. Às vezes, até desejamos que alguém nos conheça tão bem que consiga notar pequenas mudanças sem que precisemos explicar tudo. Isso faz parte da intimidade entre duas pessoas. Só que, quando transformamos essa expectativa em uma obrigação para o outro, aí temos um problema.

Ninguém, pelo menos não que eu saiba, possui uma bola de cristal para adivinhar o que as outras pessoas querem, e a comunicação, pelo menos no momento em que escrevo este texto, ainda não atingiu o ponto de poder ser feita por telepatia. Portanto, a não ser que as pessoas aprendam a se comunicar de forma clara e objetiva, as relações sempre vão tender a ser um pouco mais complicadas do que precisam ser.

Conhecer alguém não significa ter acesso aos pensamentos dessa pessoa. Mesmo que você conheça a outra pessoa há muito tempo e tenha proximidade com ela, não sabe necessariamente o que acontece no dia dela quando você não está por perto, o que ela está pensando, o que a magoou ou o que gostaria que acontecesse. A outra pessoa também não sabe essas coisas sobre você, então por que agir como se o outro tivesse que saber?

Além disso, também é preciso destacar que sinalizar e comunicar são coisas bem diferentes. Há muitos que procuram se justificar alegando que se comunicaram por meio de ações, embora não tenham dito algo com todas as palavras. Porém, uma pessoa pode estar quieta, responder diferente, fechar a cara, suspirar e ficar distante. Tudo isso pode ser percebido pelo outro, mas perceber que alguma coisa está diferente não significa necessariamente saber o que aconteceu, nem o que a pessoa espera que façamos a respeito disso. É como receber uma mensagem dizendo que algo está errado, mas não receber o resto dela! Você até fica sabendo que existe um problema, mas não sabe exatamente qual é o problema e o que deveria ser feito para resolver.

E não, não estou necessariamente querendo dizer algo tão genérico como “então é só falar”. Não quero cair nesse discurso, porque compreendo perfeitamente que, às vezes, realmente não é fácil falar. Há vezes em que precisamos de tempo para entender nossos próprios sentimentos antes de conseguirmos colocar tudo em palavras. Às vezes, podemos estar magoados sem nem saber direito por quê. Às vezes, temos medo de parecer carentes, de incomodar ou de começar uma discussão. Tudo isso é compreensível, mas ainda assim existe uma grande diferença entre não conseguir falar sobre alguma coisa e deixar de falar por simplesmente assumir que o outro deveria descobrir sozinho. No primeiro caso, há realmente uma dificuldade de comunicação — um assunto que fica para outra conversa —, mas, no segundo, trata-se de colocar no outro uma responsabilidade que ele não tem como cumprir — e sequer deveria ter que cumprir, mas isso, claro, na minha opinião.

Apesar de parecer que estou falando mais de relacionamento amoroso aqui, esse tipo de coisa acontece nos mais diversos tipos de relações. Amigos que cobram que você seja o ombro amigo deles sem que você sequer saiba que estão passando por algum momento difícil. Familiares que presumem que você deveria saber de algo, como se todos devessem conhecer seus limites sem que eles fossem ditos. No trabalho, quando cobram urgência em uma tarefa que nunca foi comunicada como urgente. No cotidiano, quando presumem que você ia querer ir a algum lugar ou fazer alguma coisa, quando o convite nem sequer aconteceu.

Não temos bola de cristal, e os outros também não têm a nossa. Talvez uma das coisas mais injustas que façamos seja julgar a resposta dada pelo outro para uma pergunta que nunca fizemos.

Participe da conversa com seu comentário!

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Saiba como seus dados em comentários são processados.

Descubra mais sobre UM ASSUNTO PUXA O OUTRO

Assine agora mesmo para continuar lendo e ter acesso ao arquivo completo.

Continuar lendo