A arte de dar tempo ao tempo…
Vivemos em uma época bem interessante. Nunca foi tão fácil conseguir algo rapidamente. Se estamos com fome, podemos preparar algo instantâneo ou pedir um delivery. Se precisamos falar com alguém, enviamos uma mensagem num aplicativo de mensagens instantâneas e, muitas vezes, esperamos um retorno imediato. Se temos uma dúvida, não precisamos mais passar horas procurando em livros ou pesquisando na internet, basta um prompt na inteligência artificial de nossa preferência e já temos o resultado.
Informação chega rápido. Comida chega rápido. Mensagens chegam rápido. Compras chegam rápido. Respostas chegam rápido. Talvez, mesmo que sem perceber, começamos a esperar que a vida também funcione assim. Talvez seja por conta dessa expectativa de instantaneidade presente no nosso cotidiano hoje, que algumas coisas estejam se tornando tão difíceis de construir. Uma amizade, por exemplo, não nasce de um simples “oi”. O amor não surge de uma simples química em uma troca de olhares. Duas pessoas precisam conversar, descobrir afinidades, perceber diferenças, estabelecer confiança uma na outra e, principalmente, passar tempo juntas. Uma relação é construída aos poucos, dando um passo de cada vez.
Mas vivemos em uma época em que até os relacionamentos podem ser atravessados pela lógica da instantaneidade. Se a conversa não flui imediatamente, é porque não existe conexão. Se não existe aquela sensação de familiaridade logo de início, então não vale a pena insistir. Se não funciona de primeira, seguimos para a próxima pessoa. Como se uma relação precisasse existir antes mesmo de ter tempo para começar.
O mesmo pode acontecer com projetos. Começamos algo esperando que dê certo rapidamente. Pensamos, criamos, empreendemos e tentamos. Então, esperamos pelos resultados. Se eles não aparecem logo no início, começamos a questionar se aquilo funciona. Se não funciona imediatamente, abandonamos, sem que haja sequer tempo suficiente para descobrir se teria funcionado.
Mas algumas coisas precisam de tempo. Precisam de tentativa e erro. Precisam de experiência. Precisam de ajustes que só aparecem depois que começamos. Precisam de um período em que ainda não existe resultado suficiente para justificar a própria existência. Só que esse período é difícil de suportar quando estamos acostumados à instantaneidade dos dias atuais.
A própria internet contribui para isso. Os algoritmos nos apresentam conteúdos em uma velocidade que dificilmente encontramos fora das telas. Um vídeo termina e outro começa. Uma publicação desaparece e outra ocupa seu lugar. Uma busca produz milhares de resultados. Um aplicativo aprende o que prende nossa atenção e rapidamente nos oferece outra coisa para olhar. Existe sempre algo novo. E, principalmente, existe sempre algo disponível. Talvez isso ajude a explicar por que esperar ficou tão desconfortável.
Não precisamos mais dedicar muito tempo a algo que não nos interessa. Podemos passar para o próximo vídeo. Podemos fechar uma página. Podemos procurar outra pessoa. Podemos trocar de aplicativo. Podemos abandonar aquele projeto e começar outro. A internet nos ensinou, em muitos aspectos, que sempre existe uma próxima opção. E, quando sempre existe uma próxima opção, permanecer diante de algo que ainda não deu resultado pode parecer perda de tempo. Mas é preciso observar se algo realmente não está funcionando ou se simplesmente ainda não teve tempo para funcionar. Nem sempre conseguimos perceber essa diferença.
Um algoritmo pode aprender rapidamente que tipo de conteúdo prende nossa atenção. Uma pesquisa pode nos entregar uma resposta em segundos. Um aplicativo pode encontrar alguém com interesses parecidos com os nossos. Mas pessoas não são algoritmos e projetos não são pesquisas na internet. A vida não funciona como um aplicativo que precisa entregar uma resposta imediatamente para continuar sendo usado.
A verdade é que algumas das coisas mais importantes na nossa vivência, como o ganho de experiência por exemplo, acontecem justamente no intervalo entre o começo de alguma coisa e o resultado daquilo. É ali que aprendemos, que mudamos de ideia, que descobrimos que precisamos fazer diferente. É nesse meio tempo que algo que parecia não funcionar começa, finalmente, a tomar forma e funcionar. É com o passar do tempo uma pessoa deixa de ser apenas alguém que conhecemos e começa, aos poucos, a se tornar alguém que realmente faz parte das nossas vidas.
Talvez seja todo esse efeito causado pela instantaneidade que faça muitos confundirem demora com fracasso. Se não aconteceu ainda, é porque não vai acontecer. Se não deu certo rapidamente, concluímos que não dará certo. Se não sentimos algo imediatamente, pensamos que simplesmente não existe nada ali. Só que crescimento, aprendizado e confiança raramente são instantâneos. E as relações, sejam de amizade, de amor ou de qualquer outro tipo, definitivamente não precisam ser instantâneas para serem verdadeiras.
Talvez precisemos reaprender a conviver com o começo das coisas. Com aquela fase em que ainda não sabemos aonde algo vai chegar. Com projetos que ainda são pequenos. Com relações em que as pessoas ainda estão se conhecendo. Com ideias que ainda não deram resultado. Com períodos em que parece que nada está acontecendo, embora alguma coisa esteja sendo construída.
Não há problema em aproveitar as facilidades que a tecnologia trouxe. Seria estranho querer voltar a um mundo em que tudo precisasse ser feito da maneira mais arcaica possível. O problema talvez esteja em levar a velocidade de algumas coisas para todas as outras. Porque poder fazer algo instantaneamente não significa que tudo deva acontecer instantaneamente.
Há coisas que precisam de tempo, não porque a tecnologia ainda não encontrou uma maneira de acelerá-las, mas porque o próprio processo faz parte do que elas são. Talvez seja justamente isso que a instantaneidade esteja nos fazendo esquecer: algumas coisas simplesmente ainda estão apenas começando.

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