Aos 30, a vida não acaba; não existe um calendário para a vida.

Recentemente, ouvi alguém dizer que os 27 anos seriam uma espécie de “idade limite” para começar algo novo — uma carreira, uma mudança de cidade, uma vida diferente. Como se, a partir dali, todas as escolhas que alguém pudesse fazer já estivessem esgotadas e, depois disso, já fosse tarde demais para qualquer tentativa de recomeço.

Inclusive, como muita coisa vem sendo dita hoje em dia, nessa mesma fala era dito haver um estudo que embasasse isso. Pois bem, a fim de obter mais esclarecimentos sobre o assunto — porque está muito na moda dizer que existem estudos sobre determinada coisa para dar mais autoridade às falas — fui buscar esse embasamento. E, é claro, não existe evidência científica alguma que estabeleça os 27 anos como limite para recomeçar.

Isso se trata apenas de uma crença popular misturada com astrologia, chamada “retorno de Saturno”: um período situado entre os 27 e os 30 anos, associado a mudanças e revisões de vida. Só para concluir: o fato de Saturno levar quase 30 anos para completar uma volta em torno do Sol é real; já a ideia de que isso define destino, maturidade ou qualquer coisa sobre as nossas vidas é apenas balela.

Bom, me desculpe se soa maçante falar em embasamento científico e coisas do tipo por aqui, mas creio que, quando usam estudos para nos empurrar uma ideia goela abaixo, é preciso verificar. É muito fácil construir uma falsa autoridade dessa forma — vide a quantidade de coaches com falas duvidosas por aí. Então, só queria trazer essa informação com a devida clareza.

Agora, uma coisa que existe se chama de “crise do quarto de vida”. Embora não tenha uma idade exata para acontecer, ela costuma atingir muitos jovens adultos, provocando dúvidas e ansiedade. E creio que seja isso que melhor explique o desespero que muitos parecem sentir em relação aos 30, quase como se a vida acabasse ali.

É comum que se trate essa idade como o encerramento de uma fase em que tudo deveria estar devidamente resolvido: trabalho, dinheiro, amor, estabilidade… E, quando alguma dessas coisas não está de acordo com o esperado, surge aquela sensação de fracasso — como se a oportunidade de “dar certo” na vida tivesse passado. Talvez isso explique tantos vídeos que começam com: “tenho 30 anos e minha vida é um fracasso”.

Ao que parece, toda a comparação presente nos dias de hoje alimentou a ideia de que existe alguma espécie de “calendário universal” para viver, gerando um grande sentimento de ansiedade. E, às vezes, nem é sobre o agora. Porém, a grande verdade é que não existe um tempo exato para algo acontecer. Isso seria loucura, uma vez que as pessoas são diferentes, partem de pontos diferentes e seguem por caminhos diferentes. Simplesmente não tem como medir todo mundo pela mesma régua.

Além disso, 27 ou 30, como preferir, é tarde demais em comparação a quê? Não sabemos quanto tempo cada um de nós ainda tem. Transformar uma idade específica em reta final soa muito menos como verdade e muito mais como ansiedade: um medo de errar e de perceber que a vida simplesmente acontece, nem sempre no ritmo que imaginávamos ou, sequer, gostaríamos.

Há pessoas que encontram uma profissão aos 20, outras aos 30 e outras, ainda, para além dos 40 — e o mesmo vale para casamento, hobbies e tantas outras coisas da vida. Há quem recomece depois de uma demissão, de um luto, de um divórcio ou simplesmente porque percebeu que a vida que construiu até então já não faz sentido para o que espera lá na frente.

Por isso, em qualquer idade, ainda é tempo de tentar algo novo, desde que existam desejo, possibilidade e vida. Recomeçar não é necessariamente uma prova de que falhamos; muitas vezes, é justamente a coragem de admitir que ainda queremos mais de nós mesmos.

Talvez seja necessário nos perguntarmos não apenas “até quando dá tempo?”, mas também: “o que eu faria se parasse de acreditar que cheguei tarde demais?”.

Participe da conversa com seu comentário!

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Saiba como seus dados em comentários são processados.

Descubra mais sobre UM ASSUNTO PUXA O OUTRO

Assine agora mesmo para continuar lendo e ter acesso ao arquivo completo.

Continuar lendo